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A Rua da Poça e o Chapéu de Bispo

29 janeiro 2026
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Saí de casa com a missão prática de ajudar a carregar móveis, mas o destino — ou talvez a agilidade da minha Honda Vision — tinha outros planos para o olhar. A carrinha, limitada aos seus dois lugares de utilidade, seguia à frente; eu, atrás, navegava entre as nuvens que, num capricho meteorológico, guardavam a chuva para o sul da cidade e ofereciam a Gualtar frestas de um azul bebé, quase ingénuo. Na Rua da Poça, o tempo parece ter estagnado num desses cartões-postais de papel baço que hoje guardamos em caixas de sapatos. Ali, encontrei um lavadouro. Um retângulo de água estática sob uma cobertura que outrora abrigou conversas, braços fortes e o cheiro a sabão azul e branco. Hoje, o silêncio é apenas interrompido pelo brilho metálico da mota, que estacionada no empedrado irregular, parece uma visitante do futuro a prestar homenagem a um passado de labor. Entrei na casa onde os móveis esperavam pela força dos braços e fui recebido por um jardim suspenso. De um arbusto teimoso pendiam p...

O efeito costas quentes

27 janeiro 2026
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O céu de Braga apresentava-se incerto, num cinza claro e harmonioso que escondia o sol, mas não a promessa de neve nas proximidades. O pretexto para tirar a Vision de casa surgiu num telefonema a meio da tarde: um lanche, um pouco de água e a vontade de encontrar a minha mulher no seu espaço de trabalho, no limite oeste do concelho, onde o rural começa a desenhar-se. Vesti o fato de PVC como quem enverga um traje espacial. Balaclava, capacete, luvas. Estava pronto para a minha pequena missão lunar. O destino era Cabreiros. No horizonte, a estrada refletia a luz moribunda do dia, um espelho molhado que exigia respeito. Em Sequeira, o motor da Vision cantava com uma satisfação contagiante; já não era a rotina do asfalto diário, era uma exploração. Há algo de profundamente libertador em viajar em direção a quem amamos, sem o tique-taque do relógio a ditar o ritmo. O encanto sofreu um solavanco na Avenida de Labriosque. O piso, devastado por crateras, é um monumento ao desleixo, "just...

A linha que me desenha

25 janeiro 2026
Há dias em que acordo com a sensação de que a cidade ainda está a meio do seu alongamento matinal. Não sei se é Braga que demora a espreguiçar-se ou se sou eu que acordo mais devagar do que devia, mas há uma espécie de silêncio macio no ar — o tipo de silêncio que não é ausência, é atmosfera. Ponho o capacete, ligo a Vision, e percebo que, por mais que tente, não consigo ser outra coisa que não isto: uma pessoa que gosta de deslizar devagar, sentir o ar, adivinhar a temperatura pela vibração do guiador. Há quem diga que isto é romantizar a rotina; eu prefiro pensar que é só estar atento. E foi isso que me deu vontade de criar o blogue. Na altura, pensei que estava a inventar uma coisa exterior a mim. Uma vitrine antiga que descobri no sótão e que decidi restaurar. Mas com o tempo percebi que A Minha Honda não era um objeto: era um vinco. Um daqueles vincos que já existiam no tecido, só estavam por passar a ferro para se verem melhor. O blogue não me transformou — limitou-se a revelar ...

Miopia sob o dilúvio

21 janeiro 2026
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O despertar do motor faz-se sem cerimónias, logo à primeira. Enquanto o motor responde sem falhas, os meus olhos ainda procuram nitidez. Pensei que o frio pudesse alterar o comportamento, mas seja na ignição ou no desenrolar na estrada, o gelo não parece obstáculo à Vision. Talvez o obstáculo esteja em mim. Lido com o caminho rotineiro para o trabalho através de uma miopia interrompida por uma ou outra divagação num reflexo: a água acumulada no asfalto, a iluminação urbana num amarelo quente, as formas caprichosas que a chuva desenha na via. Tem sido um inverno rigoroso. Talvez um dos mais chuvosos de que Braga tem memória — ou, certamente, o mais chuvoso desde que passei a fazer os meus trajetos diários em duas rodas. No entanto, o caminho cumpre-se. Mesmo com a visão turva, avanço — como se o céu tivesse perdido a tampa e nos despejasse a sua melancolia líquida. Não posso permitir que a rotina me roube a perceção dos pormenores, embora o cinzento tente torná-lo difícil. Vou seguindo ...

Anatomia de uma ausência: Lisboa sem a Vision

15 janeiro 2026
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Lisboa tinha um azul que não aceitava filtros. É um azul de revista antiga, daquelas que se folheiam com vagar num café ou quiosque de bairro, onde o tempo é medido pelo bater da colher na chávena e não pelos segundos do semáforo. Encontrei-me aqui, parado no coração do Chiado, com as mãos nos bolsos e uma estranha sensação de nudez. Falta-me o capacete debaixo do braço. Olho para os edifícios de um amarelo torrado pelo sol de inverno e dou por mim a fazer um exercício de memória muscular. Na Praça Luís de Camões, os meus olhos não procuram a estátua do poeta, mas sim o ângulo morto da calçada onde a minha Honda Vision se encaixaria com a sua elegância discreta. Sem ela, a cidade ganha uma escala diferente: as subidas parecem mais íngremes e a liberdade, outrora imediata ao rodar do punho, torna-se agora uma sucessão de passos lentos. Há uma ave que corta o céu, solitária, sobre a mansarda escura do prédio vizinho à igreja. Invejo-lhe a trajetória limpa, tão parecida com a que eu desen...

O azul-petróleo na luz que regressa

6 janeiro 2026
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O primeiro arranque de janeiro é sempre o mais pesado. Não é apenas o óleo da Vision que parece mais denso sob o frio cortante de Braga; é o próprio corpo que, vindo do casulo das férias, estranha o abraço gélido da manhã. Aos zero graus, o regresso ao trabalho na fábrica sente-se na pele como um embate de crueza. No primeiro dia, cada quilómetro é uma geometria de sobrevivência. No segundo, porém, o organismo — essa máquina biológica tão resiliente quanto a engenharia japonesa — recorda-se do seu ofício. Há uma habituação silenciosa, uma espécie de couraça invisível que nos permite ignorar o desconforto. Talvez com a idade o fogo interior perca o seu estatismo e nos obrigue a procurar o conforto em camadas de lã e tecidos técnicos, mas, por agora, a resistência ainda é uma forma de diálogo com a estrada. Janeiro guarda, no entanto, um segredo debaixo do capacete: o esticão da luz. Ao sair do turno, já não encontro o obscurantismo que nos empurra para o recolhimento. No horizonte, resi...

O pulso da cidade no lado certo da memória

3 janeiro 2026
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Saí de casa entediado, a precisar de fazer caminho sem pressa. A vontade era tanta que, ao fim da rua, a Vision avisou-me, com aquela luz laranja intermitente, que o comando da mota tinha ficado para trás. Não hesitei. Regressei a casa com a certeza de que o ia encontrar ali, pendurado na fechadura do portão da garagem, à minha espera. De volta ao paralelo da rua, a trepidação ainda não era suficiente para sacudir o vazio do meu cérebro. Segui por um alcatrão recente, mas já ferido por desníveis e tampas de esgoto que cedem ao tempo; ninguém parece querer saber, mas eu sigo, ainda que mentalmente adormecido. Pelo caminho, o cheiro a estrugido vindo do Café Mélinha despertou-me os sentidos, trazendo a primeira certeza: ia olhar para a cidade, verdadeiramente, pela primeira vez este ano. Em Lomar, um pequeno sinal de resistência analógica: uma placa numa vedação dizia "vendo vinis". Sorri. É bom saber que não sou o único por aqui a preferir o toque da agulha ao algoritmo. ...

O voo noturno do frango caseiro

30 dezembro 2025
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Mais um dia magnífico de sol. O astro-rei veio, definitivamente, passar as férias de Natal a Braga. Havia, no entanto, um compromisso doméstico: ir buscar um frango caseiro. Com um dia inteiro de luz para cumprir a missão junto de um casal amigo que se dedica à agricultura, foi preciso a noite cair para que a minha mulher levasse as mãos à cabeça e se lembrasse do assunto. Ofereci-me prontamente, claro. A noite e o frio nunca foram obstáculos, mas sim convites. Reforcei a indumentária com o casaco e as luvas e segui caminho. Enquanto o motor aquecia, a viseira embaciava-se com a minha respiração, obrigando-me a abri-la um pouco para deixar entrar o ar gélido e purificador. O dia despedia-se em tons de laranja escuro, enquanto o céu se tingia de um azul-marinho profundo. Os faróis da minha Vision cruzavam-se com o fluxo dos carros e a insistente iluminação pública amarela. A experiência noturna é diferente nesta época; as decorações exteriores transformam o asfalto. Ao atravessar a auto...

Natal em duas rodas: onde a cidade nos abraça

28 dezembro 2025
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Diz-se que a scooter é a dona da discrição, mas hoje a minha Honda Vision decidiu vestir-se de festa. Com o sol de inverno a tentar aquecer o que a manhã ainda arrefecia, partimos. Desta vez, não fui sozinho: levava a minha mulher à pendura e um convite lançado a amigos para provar que, num desfile dominado por grandes cilindradas, o espírito de liberdade não se mede em cavalos, mas em sorrisos. O encontro num posto de abastecimento foi o prefácio desta história. Três scooters , prontas para desmistificar preconceitos e seguir caminho até ao Estádio 1º de Maio. Lá, no quartel-general do Moto Clube de Braga , o tempo esticou-se na habitual e bem-vinda demora de quem celebra o reencontro. Quando a marcha arrancou, a cidade transformou-se. Do lugar do pendura, as mãos da minha mulher acenavam a crianças que, de olhos brilhantes, nos devolviam o gesto. É um momento curioso: a mota deixa de ser apenas um meio de transporte e passa a ser um elo. Senti, a cada curva, a descontração dela a fu...

Motores de Natal

24 dezembro 2025
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Véspera de Natal. O pequeno-almoço denuncia a falta de leite, mas o que parece um contratempo é, na verdade, um presente. É o pretexto para a última missão antes do Natal na mercearia da dona Cila. Levo comigo um porta-chaves do blogue para lhe entregar — um pequeno pedaço de metacrilato que carrega toda a gratidão pelas conversas do ano. Encontro-a num turbilhão de farinha e doçura, ocupadíssima a dar forma aos seus famosos pães de ló. O balcão é uma linha de montagem de afetos e, por isso, a saída é mais rápida do que o habitual. A dona Cila não tem tempo para a tertúlia; o Natal dela já está no forno. Ao sair, com o peso reconfortante do leite e dos ovos na mochila, o céu de Braga decide participar na festa. Tinha lido o aviso da Força Aérea e, pontual como um relógio suíço, o rugido dos F-16M começa a ecoar entre os prédios. É o voo de treino, o "Feliz Natal" supersónico que a FAP oferece às populações. Vejo o caça surgir, uma silhueta metálica e veloz contra o azul. E, n...

O avesso do palco

22 dezembro 2025
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Dizem que o que não se vê não existe, mas a minha câmara de vigilância discorda. No ecrã, a garagem revela-se não como o abrigo da mota, mas como o camarim de uma casa que nunca pára. A porta está aberta, num convite mudo ao ar frio de dezembro. Lá fora, no escuro, a minha Vision descansa sob a lona — uma mancha silenciosa que guarda a sua dignidade de estrada enquanto, cá dentro, a vida se amontoa em prateleiras. Há um contraste quase cómico nesta imagem: a tecnologia japonesa da scooter , Euro5+ e cheia de promessas de asfalto, separada por um batente de ferro de uma estante de sapatos desalinhada e de uma caixa de dióspiros que esperam a sua vez. Olho para este cenário e percebo que a "expulsão" da garagem, de que escrevi antes, não foi um castigo. Foi uma libertação. A garagem tornou-se o depósito da rotina — das roupas lavadas, do calçado de domingo e do entulho que o quotidiano vai deixando para trás. A mota, ao ficar do lado de fora, no pátio, mantém-se ligada ao mundo...

Cúmplice de Natal

19 dezembro 2025
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Hoje o sol apareceu em Braga com uma timidez luminosa, daquelas que parecem pedir desculpa por saberem que a chuva está ao virar da esquina. Antes que o céu se fechasse sobre o beiral da varanda, a Vision saiu à rua para sentir o asfalto seco e cumprir uma missão dupla de última hora. O pretexto foi um café de Natal. A amiga da mota preta — aquela que partilha o mesmo chão na entrada de casa e os biscates com a minha mulher — convidou-nos para um encontro de despedida antes das festas. Elas seguiram o seu ritmo, e eu fui lá ter de mota, estacionando a minha Vision vermelha perto da sua veterana preta, num reencontro que já se tornou um hábito silencioso da nossa rotina. Mas a verdadeira razão da minha pressa era outra. Havia uma encomenda de Natal à minha espera na papelaria das proximidades, um segredo que não podia entrar em casa à vista de todos. É aqui que a Vision revela a sua faceta de cúmplice: entre o banco e as carenagens, ela oferece esconderijos que nenhum porta-bagagens de...

Um aperto de mão em dezembro

17 dezembro 2025
Com temperaturas entre os dois e os quatro graus, eu e a Vision temos andado como que dentro de um frigorífico. E hoje aconteceram episódios interessantes. Apesar da temperatura, o motor da Vision aquece — e eu aqueço com ele. O mundo de sensações em cima da minha scooter não inclui o frio. Há um casulo invisível que se cria entre o motor, o corpo e o movimento, onde o inverno fica de fora. Frigorífico por fora, estrada por dentro. No regresso a casa para almoçar, senti alguém a perseguir-me. Depois, uma buzina atrás de mim. Olhei para o retrovisor e vi o meu vizinho da frente a rir-se. Respondi com uma buzinadela e um sorriso. É sempre bom perceber que o frio não demove outras pessoas que se divertem na estrada, longe da monotonia dos carros. Parei junto ao portão de casa. Ele parou ao meu lado, na sua PCX, e estendeu-me a mão. Um aperto rápido, simples, como quem diz que, além de vizinhos, somos camaradas de estrada. Duas motas lado a lado, habituadas a cruzarem-se todos os dias nas...

Heróis urbanos em dia de sol

13 dezembro 2025
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O dia de hoje está perfeito. Daqueles que fazem a cidade parecer mais pequena, mais próxima, quase simpática. Um sol limpo, sem desculpas, sem nevoeiros morais. Um dia que pede duas rodas por instinto, não por ideologia. Tinha acabado de lavar a Vision. Estava limpa, brilhante, encostada ali como quem descansa depois de um banho. Quando fui surpreendido por um estafeta, a Vision já estava seca pelo sol — sinal inequívoco de que o dia estava mesmo decidido a colaborar. Recebi então uma encomenda. Nada de épico: um pacote banal, embrulhado num saco onde se lia Eco Scooting e, logo abaixo, em letras decididas, Urban Delivery Heroes . Gosto destas coisas. Palavras grandes. Promessas urbanas. Scooters implícitas. Sorri. Confesso. Há algo em mim que continua a acreditar. Mas o herói urbano chegou… num automóvel. Um carro normal. Quatro rodas, duas portas a mais do que o necessário, nenhum silêncio digno de nota. Não era elétrico, nem híbrido, nem sequer envergonhado. Era apenas um carro a ...

A promessa do sol de inverno

9 dezembro 2025
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A rotina semanal só se torna suportável porque a Vision me leva e traz, fiel, mesmo quando o céu decide desabar sem aviso. Há dias em que a chuva parece ter sido contratada a tempo inteiro, como se alguém tivesse decretado que a água faz parte obrigatória do trajeto. Ainda assim, seguimos. O motor acorda, eu desperto com ele, e juntos abrimos caminho por ruas brilhantes de água. Mas, quando por milagre o sol aparece, mal o tocamos: um raio breve na hora de almoço, outro a cortar o regresso ao trabalho. É tudo. Vivemos encolhidos dentro do outono, e o inverno aproxima-se com aquele jeito de quem não pede licença. O direito à luz vai-nos sendo retirado aos poucos — à saída já é noite profunda, e a viagem de volta faz-se apenas com a coragem dos faróis da Vision e a claridade fria da iluminação pública, que pinta tudo num amarelo que não aquece. Ao fim de semana, devíamos respirar. Mas o céu, ciumento, fecha-se de novo. A chuva regressa como se tivesse saudades nossas. E o mais curioso é ...

Expulsa da garagem (II)

8 dezembro 2025
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A Vision voltou a ser expulsa da garagem. O portão que antes se fechava atrás dela agora serve-lhe de fundo, e o patamar da entrada transformou-se no seu novo pouso — um espaço improvisado, mas estranhamente mais prático para chegadas e partidas. Ao meio-dia, quando a deixei ali, tudo pareceu fazer sentido: terreno plano, sem curvas caprichosas, sem a coreografia apertada da garagem cheia de vida, de tralha e de pequenos perigos invisíveis. E ao final da tarde, havia um detalhe novo: uma carpete. Não uma carpete qualquer, mas uma que alguém estendera exatamente no sítio onde eu tinha deixado a mota, como quem prepara um lugar de honra. A minha enteada, com ar de quem revela uma evidência, disse logo que era para eu estacionar ali. Eu fiquei a olhar para aquilo, meio desconfiado, meio a rir-me por dentro. Acabei por telefonar à minha mulher, só para confirmar que não estava a interpretar mal o mobiliário — que me confirmou de forma desarmante: que podia estacionar ali, a menos que não m...

A Minha Honda vai ao Japão (ou quase)

5 dezembro 2025
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Acordei com um e-mail da Honda. Pensei que fosse mais uma newsletter qualquer, daquelas que falam em revisões, novos modelos e campanhas que nunca são para a minha carteira. Ou que fosse o pessoal do marketing a sugerir-me mais uma colaboração para as redes sociais da marca. Mas não. O assunto dizia apenas: “Daniel, temos uma proposta.” Abri meio a medo, meio a rir sozinho, porque ainda não tinha tomado café e o cérebro gosta de inventar entusiasmo à toa. Mas estava lá tudo, preto no branco: uma viagem ao Japão, para duas pessoas, tudo incluído. Motivo? O blogue. O meu blogue. Aquele que nasceu num domingo de tédio, num impulso de achar que talvez valesse a pena escrever sobre os meus pequenos percursos pela cidade. Viraram-me as mãos. Assim, sem aviso. Fui mostrar à minha mulher. Ela, que não gosta de motas, leu aquilo com sobrancelhas semicerradas — sinal de que estava a avaliar se isto era mesmo real ou mais uma das minhas leituras emocionais erradas. — Isto é a sério? — Acho que...

O pequeníssimo furo

1 dezembro 2025
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Saí de casa cedo, num desses sábados que ainda não decidiram se vão ser apenas nublados ou chuvosos. A estrada estava quieta, e a minha Vision — mesmo a perder ar há dias — parecia contente por alongar as pernas até à MotoVeiga. Quando cheguei, os portões ainda estavam fechados, mas já havia um cliente à porta, à espera. Há uma camaradagem muda em quem madruga por uma mota — e isso é sempre familiar. Pouco depois apareceu o Luís, que nos abriu os portões com um “bom dia” tão convicto que quase empurrou o sol para cima do céu. Entrei com a Vision, expliquei-lhe o que se passava com o pneu traseiro e, enquanto ele tratava do registo, subi ao andar de cima — começa a ser rotina, esta pequena subida sempre que a Vision precisa de atenção. Gosto daquele piso superior. Tem vendedores, escritório, boutique, e uma energia que mistura o cheiro a café com o brilho dos modelos expostos. Cumprimentei o Sr. Manuel, o patrão, que me devolveu o sorriso animado de quem reconhece uma cara que apareceu ...

Sementes

29 novembro 2025
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Eu uso porta-chaves como sementes. Dou a quem simpático se apresenta na minha vida, a quem se cruza comigo num corredor de loja ou na rua sem saber que, naquele instante, me está a regar o dia. A maioria das pessoas fica primeiro surpreendida. Um reflexo breve nos olhos — “é para mim?” — como se a cidade já não tivesse o hábito de oferecer nada que não traga código QR ou prazo de validade. Depois, quase sempre, surge um sorriso que não estava previsto na lista de compras. E eu fico com a sensação de que, naquele pequeníssimo intervalo, fiz qualquer coisa parecida com plantar. Não é publicidade. É só uma vontade de devolver o que a Vision me dá todos os dias: esta leveza de circular, de parar, de reparar. De ver um gesto e não o deixar passar. Há quem ande com moedas no bolso para o estacionamento. Eu ando com porta-chaves na minha bolsa ao ombro. E, quando sinto que alguém merece a pequena surpresa, deixo cair um nas mãos dessa pessoa — como quem oferece uma flor improvável, sem perfum...

Ao ombro

26 novembro 2025
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Há quem leve o mundo nas costas. Eu levo-o ao ombro. Dentro desta bolsa cabe o essencial: a carteira, o telemóvel, um par de chaves e, às vezes, o silêncio. É leve o suficiente para a esquecer, mas está sempre lá — a lembrar-me que a liberdade também se organiza em fechos e bolsos. Não é uma mala de viagem. É uma companheira urbana. Vai comigo em dias de sol e de chuva, por ruas estreitas e avenidas largas, entre cafés e cruzamentos, entre lugares onde se fica e outros onde se passa apenas. Quando me sento numa esplanada, pouso-a na mesa — como quem pousa uma parte de si que não precisa de estar sempre em movimento. Na aba lê-se “A Minha Honda”. Se alguém reparar e perguntar direi que é o nome de um blogue, ou talvez de uma maneira de andar — devagar, atento, com gosto em chegar, mesmo quando o destino é só mais um ponto na rotina. A bolsa é, de certo modo, a versão civil da mota. Com ela, deslizo pelas ruas a pé, atravesso passadeiras, paro em semáforos — tudo igual, só mais lento. A ...