A Rua da Poça e o Chapéu de Bispo
29 janeiro 2026
Saí de casa com a missão prática de ajudar a carregar móveis, mas o destino — ou talvez a agilidade da minha Honda Vision — tinha outros planos para o olhar. A carrinha, limitada aos seus dois lugares de utilidade, seguia à frente; eu, atrás, navegava entre as nuvens que, num capricho meteorológico, guardavam a chuva para o sul da cidade e ofereciam a Gualtar frestas de um azul bebé, quase ingénuo. Na Rua da Poça, o tempo parece ter estagnado num desses cartões-postais de papel baço que hoje guardamos em caixas de sapatos. Ali, encontrei um lavadouro. Um retângulo de água estática sob uma cobertura que outrora abrigou conversas, braços fortes e o cheiro a sabão azul e branco. Hoje, o silêncio é apenas interrompido pelo brilho metálico da mota, que estacionada no empedrado irregular, parece uma visitante do futuro a prestar homenagem a um passado de labor. Entrei na casa onde os móveis esperavam pela força dos braços e fui recebido por um jardim suspenso. De um arbusto teimoso pendiam p...