O aroma das horas vazias
18 maio 2026
Há manhãs em que a cidade não é mais do que um cenário em tons de cinza e branco, à espera que alguém lhe sopre o primeiro sinal de vida. O pretexto era mundano, quase urgente: a escassez de café em casa ameaçava o desassossego dos dias. Mas, na verdade, o que me move ao início de um fim de semana é a cadência delicada dos rituais. Partilhar o pequeno-almoço com a minha mulher é um dos meus favoritos. Ela tem o sábado povoado de clientes; eu tenho o tempo a meu favor. Despedimo-nos na penumbra cúmplice de uma pastelaria matinal e, a partir dali, a cidade passa a ser um caderno em branco. Coloco a Vision em andamento. No painel, o mostrador do combustível repousa numa barra de tranquilidade. O céu, de um azul lavado e sem mácula, estende-se sobre Braga como uma tela geométrica. O motor canta o seu sussurro mecânico habitual e a estrada, despida de trânsito, convida a uma lentidão quase cinematográfica. Descubro, com os anos, uma regra inversamente proporcional: quanto mais vazia está a ...