Paradoxo de um casal ateu num ritual católico
6 abril 2026
A véspera de Páscoa na nossa mesa não trouxe a promessa de ressurreição, mas o peso da rotina. A pergunta dos meus enteados foi direta, quase mecânica: "A avó vai?". A resposta, todos a sabíamos antes de ser proferida. A minha sogra, prisioneira de uma doença com a qual não se conforma, escolheu o exílio. Prefere a escuridão e o silêncio, como se a morte fosse uma visita que se espera na penumbra. O seu único refúgio é o ecrã do televisor, sintonizado eternamente no canal Odisseia — uma janela para mundos distantes que eu próprio lhe abri e que ela agora exige em todos os aparelhos da casa, talvez para preencher o vazio com imagens de uma vida que já não a inclui. Com a avó fora da equação, a minha mulher, numa reviravolta que nos deixou a todos — a mim inclusive — de queixo caído, lançou a bomba: "Vou de mota à casa da tua prima". "De mota, mãe? Porquê de mota?". A resposta foi um hino à liberdade, curto e definitivo: "Ora, porque eu quero!". E ...