O académico do asfalto
6 fevereiro 2026
Li algures que quem é feliz não quer saber se é verão ou inverno; que o tempo, para os satisfeitos, é apenas uma extensão do que sentem. Em Portugal, o tempo é muitas vezes tratado como uma patologia, um pretexto para o lamento crónico. Mas aqui, sobre a sela, a perspetiva muda. O granizo, quando bate, tem um ritmo próprio. Não é o tamborilar contínuo da chuva miúda, mas uma percussão tátil que o meu fato de PVC — agora cansado, com as costuras a renderem-se entre as pernas e nos punhos — teima em filtrar. Há qualquer coisa de profundamente terapêutico neste estímulo sensorial. Este é o meu segundo inverno sobre duas rodas e, curiosamente, o segundo ano em que o meu corpo ignora as gripes e as maleitas da estação. Parece que o calo do frio controlado me temperou o organismo. Talvez a felicidade urbana more nesta indiferença ao barómetro. Mas a rotina de vestir e despir as calças de plástico tornou-se um exercício de paciência que já não me seduz. Procuro a simplicidade. Encomendei uma ...