O mito e o metal: o que cabe entre dois pneus?
9 maio 2026
Há uma certa ditadura na estética. Quando se fala em cidades, em boémia urbana ou em slow reading sobre duas rodas, o mundo aponta quase por reflexo para as curvas de metal prensado vindas de Itália. A Vespa deixou de ser um veículo para se tornar um adjetivo. Mas a pergunta que me assalta, enquanto sinto a vibração discreta da minha Honda Vision nas ruas de Braga, é mais profunda: terá a Vespa o monopólio da poesia? A Vespa evoca um estilo de vida porque o cinema e a publicidade assim o ditaram. É uma beleza que nos é imposta de fora para dentro. Mas existe uma outra forma de evocação — aquela que nasce do asfalto, da fiabilidade e da invisibilidade. A minha Honda não é italiana, é japonesa. Não tem o peso do Dolce Vita , mas tem a leveza do modernismo funcional. Se a Vespa é uma ópera num teatro antigo, a Vision é um solo de jazz num clube discreto: não grita por atenção, mas transforma o ambiente de quem sabe ouvir. Qualquer scooter pode evocar o que uma Vespa evoca? No papel, tal...