109 que sabe a 1000: uma crónica de fumo e alheiras
18 abril 2026
A pergunta tornou-se um clássico, quase um provérbio de beira de estrada: “E a sua mota chega a Vieira do Minho?” Não é bem pergunta — é mais um sorriso enviesado, uma sobrancelha levantada, uma espécie de paternalismo motorizado. Há quem ache que uma Vision é uma 50 com ilusões ou uma 125 envergonhada. Mas é uma 109. Uma cilindrada imperfeita, assimétrica, que me diverte pela própria teimosia numérica. E foi com essa imperfeição que parti para uma manhã que prometia lavar-me o olhar. O asfalto fresco ainda guardava o frio da noite, mas o sol já insinuava uma claridade que poucos se dão ao trabalho de colher. Nas vias largas, a roupa batia-me no corpo como quem me acorda com palmadas leves, e o vento, ainda frio, entrava pelas costuras. Braga ficava para trás e, com ela, a tensão da semana. A temperatura oscilava entre sombras húmidas e golpes de luz. A N103 abria-se como um corredor de fuga, e ao longe o Gerês erguia-se com a serenidade de quem observa tudo sem pressa. Poderia abrand...