A esplanada que me habita: uma ética do afeto
17 fevereiro 2026
Há lugares que nos escolhem muito antes de decidirmos entrar neles. Lugares que guardamos no bolso do casaco, protegidos da erosão do uso, como um segredo de estado ou uma fotografia antiga. A esplanada da Centésima Página , em Braga, tornou-se o meu mais recente vício de observação — um hotspot emocional que frequento apenas pela moldura da janela. Sair com a Honda Vision 110 rumo à Avenida Central já não é apenas um trajeto; é um ritual de espionagem poética. Estaciono a scooter , deixo o ruído do trânsito para trás e procuro aquele enquadramento. Do lado de cá do ferro forjado, o mundo é cinza e apressado; do lado de lá, o cascalho no chão e as copas das árvores desenham um refúgio que parece ter parado numa página de uma revista de lifestyle de 1974. Neste "entre-lugar", vivo uma suspensão voluntária. Observo a boémia mansa do jardim, o gato que ignora as fronteiras e a montra de bolos que convida a uma bebida quente. Mas recuso-me a entrar. Há algo de cinematográfico ...