Restos de luz na viseira
25 fevereiro 2026
Há quem atravesse Braga e chegue ao fim do dia intacto. Eu chego com restos de luz presos à viseira, com frases a bater no interior do capacete como insetos teimosos numa noite morna. Durante muito tempo pensei que escrevia porque gostava de escrever. Hoje desconfio que escrevo por outra razão: para que a intensidade não desapareça — para reter o que, de outro modo, se perderia. Se deixasse de escrever, acho que desapareceria. A cidade continuaria no mesmo sítio. As mesmas ruas, os mesmos semáforos, o mesmo empedrado irregular a lembrar-me que o corpo também conduz. Mas faltaria qualquer coisa invisível — essa camada fina que transforma deslocação em experiência. Quando procuro o melhor enquadramento de uma rua, não estou apenas à procura de uma fotografia. Estou a tentar perceber onde a luz decide pousar. Onde o silêncio pesa mais. Onde a curva da estrada pede uma frase curta. Não é sobre estética. É sobre atenção. A escrita começa antes de eu chegar a casa. Começa quando abrando lige...