O manto do tunante
19 fevereiro 2026
O Carnaval antecipou-se, não por calendário, mas por encomenda. O alerta de entrega, que prometia um desfecho apenas para a primavera, decidiu ignorar a lógica dos estaleiros e aterrou à minha porta em pleno fevereiro. A capa chegou a tempo de receber, com a fleuma de um lorde, as últimas investidas da depressão Pedro. Há uma satisfação quase infantil em ver a chuva bater no tecido negro e escorrer, impotente, enquanto o corpo permanece seco sob aquela lona protetora. O gesto é agora único, contínuo, coreografado. Deixei para trás a luta hercúlea de descalçar botas à beira da estrada para enfiar calças de plástico; abdiquei do visual de astronauta utilitário pela silhueta fluida do académico do asfalto. Ganhei minutos que antes se perdiam na berma. Sobre a Vision, sinto que este novo traje — este manto de tunante motorizado — me apurou os sentidos. Liberto da armadura rígida de outrora, o olhar desprende-se mais facilmente do guiador para procurar o horizonte. E que horizonte. Nesta tr...