O barroco como antídoto à melancolia de sábado
21 março 2026
O sábado acordou como um corpo que não nos pertence. A semana, esse metrónomo implacável de expedientes e prazos, deixou um rasto de moedeira nos ossos, um pedido mudo de lençóis e penumbra. Mas a liberdade, para quem a cultiva em duas rodas, não se compadece com o repouso absoluto. Mesmo quando a mente ainda se espreguiça, há um ritual que reclama urgência: lavar a poeira que a chuva fugaz deixou na carenagem. Ver a água correr pelo patamar é o primeiro ato de limpeza do olhar. Depois, o Japão. Entre as páginas dos 3007 dias de André Moreira, o meu quarto em Braga dissolveu-se. Por momentos, não era a brisa do Minho que me tocava a face, mas a humidade densa de Quioto, o silêncio reverencial do Kiyomizu-dera e o pulsar metálico do metro de Tóquio. Foi a música lírica da Antena 2 que me trouxe de volta, lavando-me a cabeça. O sol, já em declínio, tingia o horizonte com uma promessa de frescura. Percebi, então, que a viagem literária precisava de um epílogo físico. "Já venho"...