Tão longe, tão perto: um trilho de resistência
16 abril 2026
Faço-me à estrada com a noção de que este ampliar da luz solar é um extra diário de vida devolvido depois do inverno nos ter apertado o horizonte. A Vision, ainda marcada pela chuva dos últimos dias, avança pelo trânsito caótico da cidade. Há quase uma insolência neste desfrutar da brisa do fim de tarde sob um céu limpo. Vejo-os — os automobilistas — irritados, conformados, presos nas filas intermináveis. Lá passa uma scooter . Depois outra. E eu, mais a Vision. A solução está-lhes diante dos olhos, mas insistem na redoma de aço, cada um sozinho, como se a solidão motorizada fosse um direito adquirido — e inquestionável. Talvez a irritabilidade no asfalto seja apenas mais uma normalidade portuguesa: “tem de ser” . A polícia, também ela enredada no trânsito da Rua do Matadouro, vê-me passar. A pressa, para eles, é um conceito relativo enquanto o turno ainda dura. Já na Rua Dom Afonso Henriques, sou obrigado a abrandar. À minha frente, uma altíssima cilindrada, cujo condutor saboreava o ...