O calor dos citrinos em pleno inverno
3 fevereiro 2026
O privilégio de ter uma mulher esquecida é, na verdade, a minha maior sorte. Cada chave deixada para trás ou casaco ignorado no cabide é o rastilho perfeito, o pretexto nobre que me faz montar a Vision em direção a ela. Ela esquece o acessório, mas lembra-se de mim. E nesse esquecimento, oferece-me o caminho. O pomar esperava-nos, guardado por um portão teimoso que insistia em desafiar a nossa entrada. Vencido o obstáculo, a natureza entregou-se. Tangeras, tangerinas e laranjas, numa explosão de laranjas garridos, foram preenchendo as caixas de plástico — velhas conhecidas de uma frutaria qualquer, agora promovidas a cofres de frescura. Ao lado, a penca, verde e viçosa, completava o quadro desta colheita improvisada. Ela pediu que eu ficasse mais um pouco. Mal sabia que me concedia um desejo mudo. Fiquei a sorver o aroma ácido e doce que pairava no ar, a provar a fruta colhida pela mão dela, com aquele sabor que nenhuma prateleira de supermercado consegue replicar. Para quem vive do po...