A lentidão necessária
1 maio 2026
Ainda meio submerso no torpor da manhã, ouvi a voz da minha mulher a atravessar o nevoeiro do despertar: era preciso transportar a tijoleira para a nossa casa de campo. Ela e o meu enteado seguiriam na carrinha de dois lugares; eu iria de mota. Levei a mão ao braço dela, num gesto de verificação, para confirmar se aquilo não era apenas uma alucinação hipnopômpica. Mas não — era mesmo um chamamento para a estrada. A ideia de aproveitar um dia nublado para voltar à Nacional 201 arrancou-me do ninho com uma prontidão que só a promessa de liberdade consegue convocar. Em minutos estava pronto, a Vision já alinhada com a Berlingo que levaria o peso do material, enquanto eu levaria o peso leve da viagem. Gilles Lipovetsky, na sua última entrevista à revista Ler , lembra-nos que a felicidade duradoura exige tempo — e que o tempo, para existir, precisa de ritmo lento. A sociedade, dizia ele, afoga-se na imediatez das pantalhas, incapaz de sustentar a atenção que uma conversa, um livro ou uma pa...