O chão almofadado do tempo
27 fevereiro 2026
O sol deste final de fevereiro possui a temperatura exata da nostalgia. É um sol baixo, de luz intensa, que nos abraça com a mesma dualidade de um SPA: o calor que relaxa os músculos e a sombra húmida que, num sopro, nos recorda a crueza do inverno. Chego a casa e o céu é um degradê de azul que se recusa a ceder ao breu. O horizonte estica-se, tal como a voz da minha mulher ao telefone — um som cansado, de braços estendidos, chamando pelo conforto do encontro. Pressiono o botão de arranque da Vision. O motor acorda sem esforço, pronto para a estrada, movido por esse impulso solar que nos empurra para junto de quem queremos estar. À chegada, os pássaros mantêm o seu concerto, indiferentes ao murmúrio da scooter , celebrando a lenta despedida da tarde. Ela pede-me companhia. Há um novo trabalho no horizonte, mas há também o medo do desconhecido, dos "bichos", do silêncio de uma rua sem saída. Caminhamos por entre o que resta de um antigo convento. Não preciso de documentos para...