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A artéria que envelheceu um século num ano

15 abril 2026
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Dizem que o tempo é relativo, mas na Avenida do Covedêlo com a Rua Sra. da Graça, ele corre a uma velocidade assustadora. Há apenas doze meses, este asfalto era uma promessa de modernidade, uma linha de futuro. Um tapete negro, liso, que ligava Celeirós à Aveleda, na periferia sul de Braga. Hoje, ao olhar para o chão junto ao parque industrial, a sensação é a de quem observa as ruínas de uma civilização antiga que tentou, sem sucesso, domesticar o subsolo. Como é que uma obra com garantia de execução se transforma, em tão pouco tempo, numa colcha de retalhos de tão má qualidade? A Vision, com o seu comportamento ágil, foi desenhada para a cidade, para serpentear no trânsito. Mas aqui, o serpentear é de sobrevivência. O chão por onde passamos não é manutenção; é um testemunho da arquitetura do desenrasque . O que vemos na imagem não é uma estrada. É uma coleção de cicatrizes mal curadas. Onde devia haver continuidade asfáltica, há agora uma guerra de materiais. O uso indevido de cimento...

O brio dos eletricistas e a cegueira dos zombies

13 abril 2026
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O pequeno-almoço ainda ecoava na memória quando coloquei o motor da minha scooter a trabalhar. Não era uma viagem de necessidade, mas de verificação — um brio de inspetor que me levou a seguir pelo asfalto fresco da manhã com a prontidão de quem sabe que há uma história à espera. Fui ver o que ninguém viu. Recordo o cenário: um poste cego, um esqueleto metálico decapitado que servia apenas de cabide para promessas políticas e fita de isolamento desbotada. Foram dois anos de inércia municipal. Mas bastou um formulário digital, um SMS e seis dias de expediente para que a E‑REDES fizesse o que a burocracia local esqueceu no fundo de uma gaveta. Cheguei ao local e encontrei não só o poste reparado, mas rejuvenescido. A luminária antiga, derretida e inútil, foi substituída por uma moderna, em LED . E não ficaram por aí: os outros dois candeeiros da mesma linha receberam o mesmo tratamento, como se a rua tivesse finalmente recuperado a coerência que lhe faltava. Um exemplo de brio técnico...

O músculo da abstração

12 abril 2026
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Sempre li a partir de redutos. A leitura, para mim, era um ritual que exigia a liturgia do quarto, o silêncio absoluto das paredes conhecidas ou, no limite da audácia, o isolamento da varanda. Fora desse perímetro de conforto, as palavras pareciam perder o fôlego, asfixiadas pelo ruído do mundo, pela luz errada ou pela conversa alheia que teimava em infiltrar-se entre as linhas. Mas a vida, tal como a estrada, impõe as suas curvas. E o "culpado" desta vez tem nome: José da Xã . Des(a)fiando Contos tornou-se a exceção que veio para ditar uma nova regra. Com as suas dimensões gentis, tão convidativas ao transporte, o livro deixou de ser um objeto de prateleira para passar a ser a "app" de entretenimento que instalei debaixo do banco da minha Honda Vision — sempre pronta a abrir. É o meu sistema operativo para as esperas e para as pausas itinerantes. Tenho treinado o músculo da abstração. Se antes a luz me distraía, agora procuro o jazz de fundo para domar o caos. Com...

O teorema do limoeiro e a garupa do tempo

10 abril 2026
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Regressei ao mesmo pátio. Há lugares que não se deixam esgotar numa única visita porque não são estáticos; são organismos vivos, caleidoscópios de textura e luz. Voltar ali não é repetir um gesto — é procurar o ângulo que a pressa da véspera deixou escapar. É um exercício quase monástico, de quem prefere a profundidade à distância. O cenário, à primeira vista simples, revela uma composição de luxo descalço: o verde denso da folhagem, o amarelo dos limões a pontuar a cena como notas improvisadas de jazz, a pedra rugosa da fachada granítica tipicamente minhota a segurar décadas de sol e de silêncio. Entre a madeira e os vasos meticulosamente compostos — pequenos oásis que alguém tratou como telas de arte viva — instala-se uma atmosfera de ruralidade sofisticada, tão precisa que parece ter sido editada à mão. E, sem aviso, esse enquadramento empurra-me para dentro das páginas que tenho habitado. Refiro-me aos livros do José da Xã , tesouros autografados que me foram oferecidos pelo autor ...

De viseira aberta, onde a pedra encontra o sol

9 abril 2026
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A luz de abril decidiu pregar-nos uma partida deliciosa. Às sete da tarde, o sol ainda vai alto o suficiente para nos convencer de que o calendário se enganou e que o verão se instalou, sem aviso, entre as lajes de pedra e o asfalto quente de Braga. Ao fim de um dia de trabalho, sentir o banco da scooter ainda morno, cozido por dez horas de claridade, é o primeiro sinal de que o recolhimento pode — e deve — ser adiado. Dou o contacto. A vibração do motor da Honda percorre-me as mãos como um batimento cardíaco, um pulso mecânico que marca o início da descompressão. A marcha arranca e, com ela, o ritual diário da evasão. Há uma cegueira que nasce da rotina. Passamos por muros de granito, limoeiros carregados e pátios silenciosos sem lhes tocar verdadeiramente a textura. Mas a scooter , com a viseira aberta, devolve-me o mundo em alta definição. O vento no rosto não serve apenas para contrariar os quase trinta graus acumulados; traz o cheiro da terra húmida das regas de fim de tarde, o r...

Não tem de estar sol

8 abril 2026
O céu de Braga hoje foi um lençol de cetim cinzento, esticado com uma perfeição quase intimidante. Uma beleza relativa — daquelas que as revistas de meados do século passado fixavam em película de grão grosso — densa, suspensa, prometendo uma chuva que teima em não cair. O asfalto, esse, parece à espera. Como se também ele escutasse. Estou já em cima da Vision, o motor num sussurro certo, as luvas ajustadas com o cuidado de um gesto repetido muitas vezes. Há uma liturgia nisto: o capacete que desce, o mundo que se afasta um pouco, o caminho que se antecipa como um território só meu. Mas o senhor Artur, do outro lado da rua, interrompe esse recolhimento. Desde que a casa dele ficou maior — ou mais vazia — as palavras ganharam-lhe urgência. Já não cabem dentro. “Tem de ser!”, atira, com um aceno largo que atravessa a distância. “Vou visitar a minha velhinha.” Aponto, quase por instinto, ao céu pesado sobre o Bom Jesus, insinuando que amanhã será mais claro, mais seco, talvez mais fácil. ...

Paradoxo de um casal ateu num ritual católico

6 abril 2026
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A véspera de Páscoa na nossa mesa não trouxe a promessa de ressurreição, mas o peso da rotina. A pergunta dos meus enteados foi direta, quase mecânica: "A avó vai?". A resposta, todos a sabíamos antes de ser proferida. A minha sogra, prisioneira de uma doença com a qual não se conforma, escolheu o exílio. Prefere a escuridão e o silêncio, como se a morte fosse uma visita que se espera na penumbra. O seu único refúgio é o ecrã do televisor, sintonizado eternamente no canal Odisseia — uma janela para mundos distantes que eu próprio lhe abri e que ela agora exige em todos os aparelhos da casa, talvez para preencher o vazio com imagens de uma vida que já não a inclui. Com a avó fora da equação, a minha mulher, numa reviravolta que nos deixou a todos — a mim inclusive — de queixo caído, lançou a bomba: "Vou de mota à casa da tua prima". "De mota, mãe? Porquê de mota?". A resposta foi um hino à liberdade, curto e definitivo: "Ora, porque eu quero!". E ...

A poesia invisível da poupança

4 abril 2026
Diz no seu editorial, Domingos Janeiro, diretor da conhecida Revista Motos , que a mota sempre foi, antes do lazer e do vento na cara, uma tábua de salvação. Uma ferramenta de sobrevivência para equilibrar as contas de casa quando a história aperta. E aperta tantas vezes. Olho para o trânsito parado da manhã e vejo-as. São dezenas de pequenas scooters que zunem por entre os carros cinzentos. Há quem lhes chame ferramentas de trabalho, veículos utilitários ou, de forma mais crua, uma tática para fintar o preço da gasolina e a tirania dos ponteiros do relógio, mas agora, com a luz generosa da primavera a bater direta no asfalto, a fuga torna-se ainda mais tentadora. São a resposta prática a uma vida que se tornou cara e rápida demais. Mas há um segredo guardado na sobriedade dessas pequenas máquinas que a economia não consegue contabilizar. A pessoa que compra uma mota apenas para poupar uns trocos ao final do mês está, sem saber, a assinar um pacto com a liberdade. No primeiro dia, ela...

De Vision e Monkey: uma peregrinação sobre rodas

3 abril 2026
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Tenho um colega de trabalho que ostenta um nome de sonoridade forte e cavaleiresca: Hildebrando. Ele é o guardião de uma Monkey reluzente que, ao contrário da discrição quase invisível da minha Vision, assume com facilidade o papel de centro das atenções. A promessa de um passeio em conjunto arrastava-se no calendário há mais de um ano. Foi preciso chegar a uma Sexta-feira Santa para que, finalmente, praticássemos juntos esta nossa quase devoção pelas máquinas menores da Honda. O destino inicial já estava selado pelo tempo: a nascente do rio que serpenteia por Braga e banha a história das suas gentes, o Rio Este. O encontro em minha casa deu-se à hora marcada, pontualidade que me surpreendeu face à conhecida e costumada descontração do Hildebrando. Mas ficou visto que, para rituais desta natureza, a pompa e a seriedade elevam-se a outro nível. Com a vontade de partir a ditar o ritmo e o itinerário discutido, a Vision assumiu a liderança. Optámos pelo circuito citadino, rasgando a cidad...

Cartografia íntima de um ano móvel

2 abril 2026
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A memória guarda com precisão o cheiro a borracha fresca e a luz difusa daquele final de manhã, num sábado de março. Olho para a fotografia, tirada há um ano – cujo aniversário se cumpriu no domingo passado – e vejo mais do que uma carenagem vermelha a estrear o descanso lateral; vejo uma fronteira nítida — quase geométrica — entre o homem que eu era e aquele em que me fui tornando. Naquele tempo, a minha relação com a pequena máquina media-se pela exatidão dos mapas e pela obsessão dos detalhes técnicos. Eu falava de navios vindos de Hanói, de burocracias portuárias, de fichas USB. Coisas sólidas. Coisas de quem ainda não tinha experimentado a leveza de flutuar sobre o asfalto. Um ano depois, percebo que não adquiri apenas um objeto de deslocação. Adquiri, sem saber, uma nova coreografia para os dias. Eu, que sempre fiz do recolhimento doméstico uma espécie de arte silenciosa, vi as paredes de casa recuarem até aos limites da cidade. A chuva e o nevoeiro, antes pretextos para a imobil...

Manual autárquico: como usar um poste morto

31 março 2026
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O ritual é sempre o mesmo. A viagem curta, o trajeto que conheço de cor, e o momento em que a scooter encosta ao rebordo do passeio, em frente à casa da minha sogra. É um instante de transição — o motor cala-se e o mundo urbano, na sua coreografia discreta, revela-se. Mas ultimamente há um detalhe que insiste em ficar. O culpado está ali, bem à frente: um poste de iluminação pública, firme, mas cego. A luminária ardeu há muito tempo. Ficou o esqueleto metálico, sem cabeça, e com a cablagem exposta – como uma ferida aberta. A fita que outrora assinalava o perigo — vibrante, urgente — tornou-se um trapo desbotado, até desaparecer por completo. Um lento apagar de responsabilidade. É a prova visível de um processo que começou com uma exposição à Câmara Municipal de Braga, lá por maio de 2024 , e que desde então repousa — confortável — nos arquivos da burocracia. Mas há uma ironia difícil de ignorar. Nas últimas eleições autárquicas, este mesmo poste cego — incapaz de iluminar o asfalto — ...

A carótida do tempo e o lote de São Tomé

28 março 2026
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Será contranatura acordar mais cedo num dia de descanso do que num dia de expediente? Faço-o para poder viver mais com a minha mulher antes de nos separarmos para diferentes destinos. Venha então, o dito pequeno-almoço fora. Em cima da máquina de venda de tabaco encontro a Revista Minha . Pego nela e folheio-a, apreciando o enquadramento da sua composição. Com a primeira dose de cafeína absorvida, partimos. O céu é de um azul absoluto, com o sol ainda baixo, a nascente. Mas antes da despedida, recebo um pedido: ir regar uma horta que mantemos, em tom de favor. Ora, meu amor, já deverias saber que a rega é para mim um prazer, não um favor. A estrada faz-me bem com o asfalto ainda a dormir. Tão a dormir que me ocorre ir em busca da avenida dorminhoca, a carótida da cidade, para lhe medir o pulsar matinal. O objetivo era rumar às coordenadas que Fernando Alves ditou na rádio – a Avenida Central que ainda cochila, sentir o silêncio do coreto mais antigo de Braga. Encosto a Vision com a na...

O inverno infinito e o enigma da Vision vermelha

26 março 2026
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Tenho acordado com o sol a bater-me no rosto. Braga, na sua bonomia primaveril, já nos oferece dias com temperaturas acima dos 20 graus. A sensação tátil de vestir roupa mais leve, em vez do peso do inverno, é uma pequena vitória diária, uma confirmação de que os dias longos e quentes chegaram para ficar. A minha Vision, que me acompanha fielmente durante todo o ano — enfrentando a chuva persistente do Minho e as manhãs gélidas de janeiro sem nunca reclamar —, parece agora brilhar de outra forma sob este calor, quase invisível no trânsito, apenas mais uma pincelada de cor na paleta da cidade. Mas, como se o mundo quisesse travar o nosso entusiasmo, recebi uma fotografia de Bulle, na Suíça. Foi o meu enteado que enviou, tirada da janela esta manhã. E a imagem é de um inverno infinito em plena primavera. Os telhados pálidos de Bulle, incluindo aquele rosa-pastel que imagino acolhedor no verão, estavam cobertos de branco. Uma árvore conífera solitária e persistente ergue-se no meio de um ...

O resgate líquido e a ironia do jardim

24 março 2026
O regresso a casa prometia o conforto do piloto automático, aquele estado de graça onde a cidade de Braga se torna um filme familiar projetado na viseira. Mas a rotina, essa senhora caprichosa, tinha outros planos gravados numa mensagem de urgência: era preciso combustível, não para a estrada, mas para o sustento de uma motorroçadora impaciente num jardim qualquer. Há uma justiça poética no momento em que quem não nutre simpatias por duas rodas se rende à evidência da sua eficácia. Ali estava ela, a acelerar o motor ruidoso entre as flores, enquanto eu partia em missão de salvamento com o jerrican vermelho entre os pés. O trânsito da hora de ponta era um tapete de metal estático, povoado por condutores de semblante pesado, prisioneiros das suas redomas de aço. Para a Vision, porém, o cenário era um recreio. À minha frente, uma daquelas máquinas de alta cilindrada, mais sonora do que eficaz no pára-arranca, ensaiava movimentos entre os carros com uma insistência quase coreográfica, mas ...

O barroco como antídoto à melancolia de sábado

21 março 2026
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O sábado acordou como um corpo que não nos pertence. A semana, esse metrónomo implacável de expedientes e prazos, deixou um rasto de moedeira nos ossos, um pedido mudo de lençóis e penumbra. Mas a liberdade, para quem a cultiva em duas rodas, não se compadece com o repouso absoluto. Mesmo quando a mente ainda se espreguiça, há um ritual que reclama urgência: lavar a poeira que a chuva fugaz deixou na carenagem. Ver a água correr pelo patamar é o primeiro ato de limpeza do olhar. Depois, o Japão. Entre as páginas dos 3007 dias de André Moreira, o meu quarto em Braga dissolveu-se. Por momentos, não era a brisa do Minho que me tocava a face, mas a humidade densa de Quioto, o silêncio reverencial do Kiyomizu-dera e o pulsar metálico do metro de Tóquio. Foi a música lírica da Antena 2 que me trouxe de volta, lavando-me a cabeça. O sol, já em declínio, tingia o horizonte com uma promessa de frescura. Percebi, então, que a viagem literária precisava de um epílogo físico. "Já venho"...

O peso da leveza

20 março 2026
Dizem que o tempo é uma estrada de sentido único, mas esquecem-se de mencionar que o pavimento vai ficando mais rugoso. Ultimamente, tenho pensado no Steve Williams e na forma como ele descreve o avançar dos ponteiros — não os do velocímetro, mas os da vida. Há uma honestidade desarmante em admitir que o corpo, por vezes, pede uma trégua ao asfalto. Montar na scooter deixou de ser apenas um gesto mecânico para se tornar um ato de preservação. No meio da geometria rígida de Braga, a agilidade das duas rodas é a minha pequena revolta contra a gravidade e os anos que se acumulam nos ombros. A cidade exige pressa, mas a maturidade ensinou-me o luxo da pausa. Quando travo num semáforo da Avenida Central, não estou apenas à espera do verde; observo o reflexo nas montras, o movimento errático dos pedestres, a luz de fim de tarde a dourar o granito. A minha Honda não me pede força nem proezas atléticas. Oferece-me o contrário: uma cumplicidade silenciosa que não exige esforço, apenas presenç...

Lealdade não é cheque em branco

17 março 2026
Há uma certa mística em entrar num concessionário e sair de lá com o "pacote completo". A máquina nova, o brilho do verniz e aquele selo de garantia que parece estender-se a tudo o que toca na mota, incluindo o papel do seguro. No momento da estreia, os 122€ pareceram um detalhe, um custo de contexto para garantir que a pequena Vision 110 estaria sob a asa protetora da própria casa. Mas o tempo, esse editor implacável, acaba sempre por colocar as vírgulas nos lugares certos. Ver a renovação chegar à caixa de correio com um salto para os 144€ — por uma cobertura de responsabilidade civil que pouco mais faz do que o mínimo legal — é como descobrir que aquela revista de capa sofisticada, que tanto admiramos, decidiu aumentar a assinatura sem acrescentar uma única página de conteúdo relevante. É um exercício de marketing que testa a nossa distração, assumindo que a lealdade à marca é um cheque em branco. A Honda é engenharia, é a precisão japonesa, é o prazer de serpentear por B...

A sinfonia do pano e do poleiro

15 março 2026
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O domingo, quando decide redimir-se da chuva de sábado, traz consigo uma claridade que não perdoa. Sob a luz crua, a Vision revela a geografia das últimas semanas: um mapa de poeira e gotículas secas que finge uma robustez de cross que a sua silhueta urbana habitualmente recusa. Há um prazer quase meditativo no ritual da mangueira. A água corre, a pressão expulsa a crueza do tempo incerto e, antes que o sol — hoje cheio de uma energia impaciente — decida ditar o ritmo da secagem, entra em cena o pano. É um gesto de cuidado, um polimento que é também uma forma de silêncio. E é nesse silêncio que o bairro se revela. A liberdade, dizem, ouve-se no bater de asas, mas na falta de pássaros livres, o destino entrega-nos o canário do vizinho. Um canto tímido, a princípio, como quem pede licença para existir entre muros. A resposta surge natural, num assobio que tenta quebrar as grades invisíveis (e as de ferro) daquela pequena gaiola. É aqui que o ritual muda. O que era um ruído de fundo torn...

O sabor do regresso

14 março 2026
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O cacifo metálico, frio e impessoal, guarda mais do que o vestuário de trabalho. No topo, como uma sentinela silenciosa que observa o desenrolar das horas de expediente, o meu capacete repousa. É o único objeto ali que mantém a promessa de um horizonte, enquanto lá fora a cidade se espreguiça sob uma morrinha persistente e as cotações do mundo tentam ditar o ritmo do nosso cansaço diário. Cumprida a obrigação, o gesto torna-se quase litúrgico: calçar as luvas, sentir o peso do capacete e despertar o motor. O som da combustão é o primeiro sinal de alívio, a primeira fenda na redoma da rotina. É a corrida necessária para casa, o escape antes que novas correntes se inventem. Mas o verdadeiro culminar do dia não acontece no asfalto. Acontece mais tarde, quando a luz da minha secretária aquece o ambiente e o corpo finalmente abranda. Foi aí, entre o conforto do jantar e o silêncio da noite, que recebi a brisa fresca: Fernando Alves regressou. Ouvir o Fernando é regressar a uma rádio de porm...

O pequeno milagre de março

9 março 2026
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O domingo de sol, já tingido pela antecipação da Semana Santa, pedia uma diabrura. Aproveitei o pretexto do calendário e o espírito do imprevisto que a define. Sem espaço para negociações, lancei o desafio: íamos sair, e o destino era o vento. Ela nem pestanejou. Preparou-se como quem ruma ao Ártico, estreando as luvas que, estrategicamente, eu lhe tinha oferecido meses antes. Enquanto a Vision aquecia o motor num murmúrio de preliminares, ela surgiu — encasacada, de capacete aberto para evitar a clausura e com a sua malinha de textura peluda. Sob o banco da scooter , coube o mundo dela; sobre as rodas, o nosso. Arrancámos com o sol a inclinar-se para o mar. "Para onde vamos?", perguntou-me em andamento. "Para lugar nenhum", respondi. E nesse "nenhum" coube tudo: a observação atenta de um prédio em construção, o diálogo que flui melhor sem o isolamento do vidro e do metal, a descoberta de que somos melhores observadores quando o corpo faz parte da paisagem...