O resgate líquido e a ironia do jardim
24 março 2026
O regresso a casa prometia o conforto do piloto automático, aquele estado de graça onde a cidade de Braga se torna um filme familiar projetado na viseira. Mas a rotina, essa senhora caprichosa, tinha outros planos gravados numa mensagem de urgência: era preciso combustível, não para a estrada, mas para o sustento de uma motorroçadora impaciente num jardim qualquer. Há uma justiça poética no momento em que quem não nutre simpatias por duas rodas se rende à evidência da sua eficácia. Ali estava ela, a acelerar o motor ruidoso entre as flores, enquanto eu partia em missão de salvamento com o jerrican vermelho entre os pés. O trânsito da hora de ponta era um tapete de metal estático, povoado por condutores de semblante pesado, prisioneiros das suas redomas de aço. Para a Vision, porém, o cenário era um recreio. À minha frente, uma daquelas máquinas de alta cilindrada, mais sonora do que eficaz no pára-arranca, ensaiava movimentos entre os carros com uma insistência quase coreográfica, mas ...