O pequeno milagre de março
9 março 2026
O domingo de sol, já tingido pela antecipação da Semana Santa, pedia uma diabrura. Aproveitei o pretexto do calendário e o espírito do imprevisto que a define. Sem espaço para negociações, lancei o desafio: íamos sair, e o destino era o vento. Ela nem pestanejou. Preparou-se como quem ruma ao Ártico, estreando as luvas que, estrategicamente, eu lhe tinha oferecido meses antes. Enquanto a Vision aquecia o motor num murmúrio de preliminares, ela surgiu — encasacada, de capacete aberto para evitar a clausura e com a sua malinha de textura peluda. Sob o banco da scooter , coube o mundo dela; sobre as rodas, o nosso. Arrancámos com o sol a inclinar-se para o mar. "Para onde vamos?", perguntou-me em andamento. "Para lugar nenhum", respondi. E nesse "nenhum" coube tudo: a observação atenta de um prédio em construção, o diálogo que flui melhor sem o isolamento do vidro e do metal, a descoberta de que somos melhores observadores quando o corpo faz parte da paisagem...