A evasão permitida e o rumor de uma nova estação
25 abril 2026
Aos quarenta e dois anos, os dias já não se medem apenas em horas: medem-se em densidade. No meu caso, essa densidade tem o som metálico da fábrica, o cheiro ácido dos químicos e a precisão fria das máquinas que me acompanham há anos. É um trabalho honesto, disciplinado, mas que tem alimentado um rumor persistente — o rumor de que talvez exista, algures, uma estação mais luminosa à minha espera. Quando termina mais um turno, desses que moldam o corpo e a mente como se ambos fossem peças da mesma prensa industrial, encontro o meu pequeno rito de libertação. A minha scooter vermelha — simples e fiel — torna-se o meu corredor de fuga. Não me leva para longe, mas leva-me para onde importa: um pedaço de terra onde o tempo abranda e onde, finalmente, sou eu quem dita o ritmo. É ali, entre a rega do pomar e da horta, que o peso se desfaz. Há uma espécie de redenção no som da água a correr, um som que nenhuma máquina conseguirá imitar. Talvez os pássaros não saibam, nem o sol que desce devaga...