O peso da leveza
20 março 2026
Dizem que o tempo é uma estrada de sentido único, mas esquecem-se de mencionar que o pavimento vai ficando mais rugoso. Ultimamente, tenho pensado no Steve Williams e na forma como ele descreve o avançar dos ponteiros — não os do velocímetro, mas os da vida. Há uma honestidade desarmante em admitir que o corpo, por vezes, pede uma trégua ao asfalto. Montar na scooter deixou de ser apenas um gesto mecânico para se tornar um ato de preservação. No meio da geometria rígida de Braga, a agilidade das duas rodas é a minha pequena revolta contra a gravidade e os anos que se acumulam nos ombros. A cidade exige pressa, mas a maturidade ensinou-me o luxo da pausa. Quando travo num semáforo da Avenida Central, não estou apenas à espera do verde; observo o reflexo nas montras, o movimento errático dos pedestres, a luz de fim de tarde a dourar o granito. A minha Honda não me pede força nem proezas atléticas. Oferece-me o contrário: uma cumplicidade silenciosa que não exige esforço, apenas presenç...