O batismo negado (ou a 110 nas gazetas)

Braga acordou com uma nova cor nos seus ecrãs, e por estranho que pareça, a cor é minha. A minha Honda Vision 110 — aquela pequena peça de design japonês que trato como extensão da minha própria pele — decidiu, sem me consultar, tornar-se a musa da imprensa regional.
Há dias, estacionei-a no posto da Plenergy, em Celeirós, e fotografei-a. Procurei o ângulo baixo, a geometria das bombas de combustível e aquele vermelho que corta o cinzento do asfalto como uma gota de sangue num lençol de linho. O que eu não sabia era que esse meu olhar, captado num momento de "leitura lenta", seria engolido pela voragem do clickbait.
A imagem que preparei para esta crónica é a prova material deste fenómeno. Um díptico da era digital onde a minha mota aparece, omnipresente, em dois dos principais portais da região: o E24 e O Minho. É fascinante observar o contraste de "batismos". No portal E24, a prosa é assinada por Nuno Cerqueira; n' O Minho, o texto pertence a Pedro Luís Silva. Há um nome para a palavra, um rosto para a notícia, mas a fotografia — o elemento que realmente agarra o leitor — é tratada como um órfão visual, um recurso anónimo rotulado com o vago "Foto: DR".
Como num jogo de espelhos de uma agência de publicidade de meados do século, a minha 110 multiplicou-se. Ali está ela, hirta e vibrante, servindo de cenário a notícias sobre cêntimos e expansões de mercado, como se tivesse sido enviada por um gabinete de relações públicas e não por um cronista solitário.
Eu, que fujo da ditadura do algoritmo, vejo o meu olhar ser consumido à velocidade de um scroll impaciente. Os jornais, na pressa de ilustrar o imediato, esqueceram-se do nome que assina a lente. Para a redação, é apenas uma imagem funcional; para mim, é um momento de silêncio urbano que me foi subtraído.
Tornei-me um autor fantasma na minha própria cidade. Enquanto os editores debatem o preço da gasolina, eu sorrio ao ver a minha 110 brilhar sob os píxeis alheios. Reclamo o crédito, claro, não por vaidade, mas por uma questão de higiene editorial. Porque, num mundo de reproduções infinitas, a única coisa que realmente possuímos é a assinatura do nosso olhar. E a minha, por agora, viaja à boleia de um link sem nome, à espera de ser devolvida a este caderno de sensações.
