A carótida do tempo e o lote de São Tomé

28 março 2026

Será contranatura acordar mais cedo num dia de descanso do que num dia de expediente? Faço-o para poder viver mais com a minha mulher antes de nos separarmos para diferentes destinos. Venha então, o dito pequeno-almoço fora.

Em cima da máquina de venda de tabaco encontro a Revista Minha. Pego nela e folheio-a, apreciando o enquadramento da sua composição.

Com a primeira dose de cafeína absorvida, partimos. O céu é de um azul absoluto, com o sol ainda baixo, a nascente. Mas antes da despedida, recebo um pedido: ir regar uma horta que mantemos, em tom de favor. Ora, meu amor, já deverias saber que a rega é para mim um prazer, não um favor.

A estrada faz-me bem com o asfalto ainda a dormir. Tão a dormir que me ocorre ir em busca da avenida dorminhoca, a carótida da cidade, para lhe medir o pulsar matinal. O objetivo era rumar às coordenadas que Fernando Alves ditou na rádio – a Avenida Central que ainda cochila, sentir o silêncio do coreto mais antigo de Braga.

Scooter Honda Vision vermelha estacionada em primeiro plano diante do coreto histórico da Avenida Central em Braga. Estrutura octogonal em ferro e pedra sob um céu azul limpo e árvores de primavera ao fundo.

Encosto a Vision com a naturalidade de quem já imaginou o gesto. Não há trânsito, apenas raros transeuntes. Ali está ele: o pavilhão acústico edificado em 1868, erguido no antigo Passeio Público.

Olho para a estrutura e recordo os detalhes técnicos – o projeto do engenheiro municipal Joaquim Pereira da Cruz, a fundição executada pela Fundição do Ouro, do Porto, e a cantaria do mestre pedreiro Francisco Alves, de Navarra. É um dos exemplares mais antigos de Portugal, uma jóia de ferro e pedra que conquistou a classificação como monumento de interesse municipal.

Naquele silêncio, o coreto parece bordado de memórias. Palco de bandas filarmónicas, de encontros, de afetos que resistem ao tempo.

Depois, escapei-me para o túnel da Via da Liberdade, que está logo ali, como uma toupeira urbana de rastejar mecânico, deixando a avenida acordar por si enquanto me afasto da malha urbana.

De mangueira na mão, no meio de um pomar com horta, detenho-me numa japoneira imponente.

Japoneira de grande porte com flores vermelhas. No centro da árvore, destaca-se uma pequena casa de madeira integrada nos ramos, sob um céu azul brilhante.

Sempre que o faço, lembro-me da surpresa dos japoneses ao verem este arbusto — originário do seu país — ganhar no norte de Portugal um porte quase arbóreo. Chamam-lhe camélia, roseira-do-japão, camélia japónica. A minha favorita por homenagear a sua origem com simplicidade é simplesmente "japoneira".

Esta tem dimensão suficiente para sustentar uma pequena casa na árvore — obra, imagino, de um avô habilidoso à espera dos netos. E assim, uma árvore transforma-se também numa janela para o mundo.

Olho para o relógio. O tempo aperta. Ainda quero surpreender a minha mulher com uma visita inesperada antes de me enclausurar em casa para tomar conta do meu enteado. Regresso à cidade.

A atmosfera é outra. A estrada já acordou. Páro no semáforo da Avenida Imaculada Conceição com a Rua Monsenhor Airosa e reparo no charme de uma casa senhorial, escondida por muros altos — visível apenas a partir desta suspensão semafórica vermelha. Prometo a mim mesmo voltar a este enquadramento.

Encosto a Vision e reencontro a minha mulher na Senhora-a-Branca. O sorriso não engana. Quanto vale ter alguém que fica feliz só por nos ver?

Antes de lhe dar uma mão, dou um saltinho a pé novamente à Avenida Central, mesmo ali ao lado. E com a diferença de duas horas, faço o balanço de uma mesma avenida que consegue ser várias avenidas diferentes ao longo do dia.

Entro na Negrita. O cheiro a café toma conta de mim.

Interior da loja A Negrita com fila de moedores de café industriais vintage em metal cromado e tons bege. Na parede, um quadro clássico com a ilustração da marca e o texto Casa Fundada em 1948.

Detenho-me nos moedores alinhados atrás do balcão. A sorte de ter clientes à frente permite-me observar o espaço como deve ser – com tempo. O aroma é um preliminar perfeito, casando com os tons castanhos e metálicos do interior.

Procuro nas prateleiras aquilo que me trouxe ali: um sabor antigo. O café que bebi, há anos, em casa de um amigo em Sintra — um lote de São Tomé. Encontro-o.

Primeiro plano focado em dois moedores de café industriais vintage, idênticos e simétricos, com bases douradas e cúpulas cromadas. À esquerda, um pequeno cartaz de parede com ilustrações de grãos de café e uma chávena.

Peço 250 gramas. E já agora 250 de amendoins de Israel, dizem que são inconfundíveis – com sabor de antigamente. Os grãos são pesados, depois despejados no moedor. O som da moagem, ali à minha frente, é breve demais. Mas sei que voltarei — e, quando voltar, levarei mais, para também prolongar esse instante.

Este café será um mimo depois do almoço. Já o antecipo.

Fachada da loja A Negrita em Braga com azulejos vermelhos e placa antiga. Em primeiro plano, um embrulho de papel atado com cordel em cima de um capacete azul.

Saio com um embrulho à antiga: papel e cordel. Como as cartas do meu pai. Como os livros que o José da Xã me ofereceu. Quem embrulha assim, sabe o que faz.

Faço-me à estrada. Parado na tranquilidade de um semáforo, observo o trânsito a aborrecer-se nas filas.

Perspetiva urbana de uma avenida larga em Braga com o semáforo em primeiro plano apresentando a luz vermelha. O asfalto está vazio e o sol matinal ilumina os edifícios e as árvores ao longo da via.

Na realidade, sinto que esta minha contemplação da vida faz cair sobre mim uma imensa inveja vinda do interior das redomas de aço.

São modos de estar.
E os modos – esses – são cada vez menos.

Estaciono a scooter no patamar, à entrada de casa, com a tranquilidade que exijo ter direito. Fica ali, pronta. À espera da nossa próxima evasão.

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