A carótida do tempo e o lote de São Tomé
Será contranatura acordar mais cedo num dia de descanso do que num dia de expediente? Faço-o para poder viver mais com a minha mulher antes de nos separarmos para diferentes destinos. Venha então, o dito pequeno-almoço fora.
Em cima da máquina de venda de tabaco encontro a Revista Minha. Pego nela e folheio-a, apreciando o enquadramento da sua composição.
Com a primeira dose de cafeína absorvida, partimos. O céu é de um azul absoluto, com o sol ainda baixo, a nascente. Mas antes da despedida, recebo um pedido: ir regar uma horta que mantemos, em tom de favor. Ora, meu amor, já deverias saber que a rega é para mim um prazer, não um favor.
A estrada faz-me bem com o asfalto ainda a dormir. Tão a dormir que me ocorre ir em busca da avenida dorminhoca, a carótida da cidade, para lhe medir o pulsar matinal. O objetivo era rumar às coordenadas que Fernando Alves ditou na rádio – a Avenida Central que ainda cochila, sentir o silêncio do coreto mais antigo de Braga.

Encosto a Vision com a naturalidade de quem já imaginou o gesto. Não há trânsito, apenas raros transeuntes. Ali está ele: o pavilhão acústico edificado em 1868, erguido no antigo Passeio Público.
Olho para a estrutura e recordo os detalhes técnicos – o projeto do engenheiro municipal Joaquim Pereira da Cruz, a fundição executada pela Fundição do Ouro, do Porto, e a cantaria do mestre pedreiro Francisco Alves, de Navarra. É um dos exemplares mais antigos de Portugal, uma jóia de ferro e pedra que conquistou a classificação como monumento de interesse municipal.
Naquele silêncio, o coreto parece bordado de memórias. Palco de bandas filarmónicas, de encontros, de afetos que resistem ao tempo.
Depois, escapei-me para o túnel da Via da Liberdade, que está logo ali, como uma toupeira urbana de rastejar mecânico, deixando a avenida acordar por si enquanto me afasto da malha urbana.
De mangueira na mão, no meio de um pomar com horta, detenho-me numa japoneira imponente.

Sempre que o faço, lembro-me da surpresa dos japoneses ao verem este arbusto — originário do seu país — ganhar no norte de Portugal um porte quase arbóreo. Chamam-lhe camélia, roseira-do-japão, camélia japónica. A minha favorita por homenagear a sua origem com simplicidade é simplesmente "japoneira".
Esta tem dimensão suficiente para sustentar uma pequena casa na árvore — obra, imagino, de um avô habilidoso à espera dos netos. E assim, uma árvore transforma-se também numa janela para o mundo.
Olho para o relógio. O tempo aperta. Ainda quero surpreender a minha mulher com uma visita inesperada antes de me enclausurar em casa para tomar conta do meu enteado. Regresso à cidade.
A atmosfera é outra. A estrada já acordou. Páro no semáforo da Avenida Imaculada Conceição com a Rua Monsenhor Airosa e reparo no charme de uma casa senhorial, escondida por muros altos — visível apenas a partir desta suspensão semafórica vermelha. Prometo a mim mesmo voltar a este enquadramento.
Encosto a Vision e reencontro a minha mulher na Senhora-a-Branca. O sorriso não engana. Quanto vale ter alguém que fica feliz só por nos ver?
Antes de lhe dar uma mão, dou um saltinho a pé novamente à Avenida Central, mesmo ali ao lado. E com a diferença de duas horas, faço o balanço de uma mesma avenida que consegue ser várias avenidas diferentes ao longo do dia.
Entro na Negrita. O cheiro a café toma conta de mim.

Detenho-me nos moedores alinhados atrás do balcão. A sorte de ter clientes à frente permite-me observar o espaço como deve ser – com tempo. O aroma é um preliminar perfeito, casando com os tons castanhos e metálicos do interior.
Procuro nas prateleiras aquilo que me trouxe ali: um sabor antigo. O café que bebi, há anos, em casa de um amigo em Sintra — um lote de São Tomé. Encontro-o.

Peço 250 gramas. E já agora 250 de amendoins de Israel, dizem que são inconfundíveis – com sabor de antigamente. Os grãos são pesados, depois despejados no moedor. O som da moagem, ali à minha frente, é breve demais. Mas sei que voltarei — e, quando voltar, levarei mais, para também prolongar esse instante.
Este café será um mimo depois do almoço. Já o antecipo.

Saio com um embrulho à antiga: papel e cordel. Como as cartas do meu pai. Como os livros que o José da Xã me ofereceu. Quem embrulha assim, sabe o que faz.
Faço-me à estrada. Parado na tranquilidade de um semáforo, observo o trânsito a aborrecer-se nas filas.

Na realidade, sinto que esta minha contemplação da vida faz cair sobre mim uma imensa inveja vinda do interior das redomas de aço.
São modos de estar.
E os modos – esses – são cada vez menos.
Estaciono a scooter no patamar, à entrada de casa, com a tranquilidade que exijo ter direito. Fica ali, pronta. À espera da nossa próxima evasão.