109 que sabe a 1000: uma crónica de fumo e alheiras

18 abril 2026
Perspetiva do condutor sobre o guiador de uma scooter bordeaux metalizada, estacionada diante de um espigueiro tradicional em pedra e madeira. O sol surge por trás do telhado, criando feixes de luz que iluminam o pavimento de paralelepípedos e se refletem nos espelhos retrovisores contra o azul límpido do céu.

A pergunta tornou-se um clássico, quase um provérbio de beira de estrada: “E a sua mota chega a Vieira do Minho?” Não é bem pergunta — é mais um sorriso enviesado, uma sobrancelha levantada, uma espécie de paternalismo motorizado. Há quem ache que uma Vision é uma 50 com ilusões ou uma 125 envergonhada. Mas é uma 109. Uma cilindrada imperfeita, assimétrica, que me diverte pela própria teimosia numérica. E foi com essa imperfeição que parti para uma manhã que prometia lavar-me o olhar.

O asfalto fresco ainda guardava o frio da noite, mas o sol já insinuava uma claridade que poucos se dão ao trabalho de colher. Nas vias largas, a roupa batia-me no corpo como quem me acorda com palmadas leves, e o vento, ainda frio, entrava pelas costuras. Braga ficava para trás e, com ela, a tensão da semana. A temperatura oscilava entre sombras húmidas e golpes de luz. A N103 abria-se como um corredor de fuga, e ao longe o Gerês erguia-se com a serenidade de quem observa tudo sem pressa.

Poderia abrandar. Poderia. Mas há semanas que pedem velocidade, não para fugir, mas para reorganizar o corpo. A Vision respondeu-me com firmeza, até que um Fiat Punto, onde duas mulheres conversavam com entusiasmo, me obrigou a aceitar um outro ritmo. Rendi-me. Há velocidades que não se discutem.

No alto das Cerdeirinhas com vista para a Cabreira, o vale de Vieira do Minho parecia envolto numa névoa bonita, quase cinematográfica. Mas, descendo pela N304, percebi que não era névoa — era fumo. Um fumo denso, persistente, que se entranhava na paisagem e no nariz. Ainda assim, havia ciclistas, corredores, gente que não se deixa intimidar por atmosferas adversas.

Ao abandonar a vila, tudo mudou. As curvas tornaram-se mais íntimas, as subidas e descidas revelavam pedaços de verde, muros de pedra, casas que parecem ter sido construídas com a paciência de quem sabe esperar. O gado repousava nos campos, indiferente ao mundo. Quando dei por mim, estava em Vilarchão, a estacionar diante de um espigueiro monumental, desses que parecem guardar não só milho, mas memórias.

Em Vilarchão, há gente que é dada. Gente que insiste. Gente que não aceita um “não” dito com educação. Saí de lá mais carregado do que entrei, com alheiras no compartimento da mota e a sensação de que a hospitalidade rural continua a ser uma força da natureza.

No regresso, o fumo em Vieira do Minho mantinha-se pesado, quase opaco, e não me convidou a parar. Subi novamente às Cerdeirinhas, deixando para trás aquela névoa de combustão e regressando ao ar limpo da serra. A N103 recebeu-me com giestas que pareciam acenar-me, como se o caminho tivesse ganho vontade própria. A Vision manteve-se impecável, lembrando-me — sem surpresas — que tem mais do que o suficiente para me levar onde preciso e, sobretudo, para me devolver a mim mesmo.

Depois do banho de paisagem, quis o contraste. Entrei em Braga pelo centro, deixei que as fachadas, os semáforos, os túneis e o ruído urbano me devolvessem ao quotidiano. E, quando finalmente cheguei a casa, percebi que tinha regressado diferente: mais leve, mais alinhado, mais pronto para um fim de semana que, pela primeira vez em dias, não me pedia nada.

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