Paradoxo de um casal ateu num ritual católico

6 abril 2026
Scooter de cor bordeaux estacionada num pátio de calçada. Uma bola de futebol repousa no chão ao lado da mota. Do outro lado do muro, na rua pública, passa um grupo de pessoas vestidas com capas vermelhas rituais, transportando uma cruz ornamentada.

A véspera de Páscoa na nossa mesa não trouxe a promessa de ressurreição, mas o peso da rotina. A pergunta dos meus enteados foi direta, quase mecânica: "A avó vai?". A resposta, todos a sabíamos antes de ser proferida. A minha sogra, prisioneira de uma doença com a qual não se conforma, escolheu o exílio. Prefere a escuridão e o silêncio, como se a morte fosse uma visita que se espera na penumbra. O seu único refúgio é o ecrã do televisor, sintonizado eternamente no canal Odisseia — uma janela para mundos distantes que eu próprio lhe abri e que ela agora exige em todos os aparelhos da casa, talvez para preencher o vazio com imagens de uma vida que já não a inclui.

Com a avó fora da equação, a minha mulher, numa reviravolta que nos deixou a todos — a mim inclusive — de queixo caído, lançou a bomba: "Vou de mota à casa da tua prima".

"De mota, mãe? Porquê de mota?".

A resposta foi um hino à liberdade, curto e definitivo: "Ora, porque eu quero!".

E assim, dois ateus confessos, que não precisam de templos para encontrar moralidade, mas que sabem respeitar a fé dos outros como quem admira um monumento vivo, prepararam-se para o ritual. Eu, que encontro mais tolerância nas Testemunhas de Jeová que me batem à porta do que em muitos que comungam aos domingos, vejo na Igreja a beleza de uma ruína habitada. Para muitos, é um lavadouro de almas intragáveis; para mim, é história e respeito pelo próximo.

Vestimo-nos a rigor. O dia era de vaidade pascal. As ruas, lavadas de lixívia e água numa "limpeza" ritualística, forçavam a nossa scooter Vision a atravessar pequenos riachos urbanos. Há quem lave a rua na frente de casa como quem lava os pecados, num automatismo rotineiro. As mesas, abastadas num exagero de comida que raia a gula, contrastavam com a suposta simplicidade cristã. Fomos, não por crença, mas por respeito a quem nos queria receber.

A mim, entusiasmava-me a ideia. Aperaltado em cima da scooter, como um figurante num filme italiano, senti o prazer puro. O percurso, rural e pontuado pelas inevitáveis lombas — essa praga local —, levou-nos por Tadim, onde a festa em honra de Nossa Senhora das Candeias e São Bartolomeu já se anunciava. Cantoria peca no palco, álcool a fluir, tudo com o patrocínio do empresariado local, muitas vezes o mesmo que impõe condições de trabalho infernais. A religião, mais uma vez, a branquear comportamentos duvidosos.

O sol estava esplêndido, mas a paz do trajeto era quebrada pela tensão da minha mulher, que não consegue descontrair sobre duas rodas. Num único momento de ultrapassagem, a ateísta soltou um instintivo e sonoro "Ai meu Deus!". Eu, por outro lado, deliciava-me. A camisa fina de verão, ao vento, dava-me a sensação deliciosa de estar em tronco nu sobre a Vision. O vento era a minha reza.

Chegados a Ruílhe, fomos recebidos pela imagem doce de uma avó e uma neta a terminarem um tapete de flores no portão. Um convite visual para o Compasso Pascal. Lá dentro, a espera longa prolongou a conversa em redor de uma mesa farta. O diálogo, contudo, depressa descambou para a política paroquial: alegados favorecimentos a casas que contribuíam com mais dinheiro para a Igreja. A anfitriã, suposta católica, atirou sem rodeios: "A Igreja quer é dinheiro e com dinheiro todos os jeitinhos se conseguem".

Ali estávamos, rodeados de católicos não-praticantes, cuja fé se revelava uma descrença generalizada na instituição que alimentavam. A necessidade de cumprir o ritual, de convidar e comer não por espontaneidade, mas "porque tem de ser", porque é tradição, deixou-me a pensar: estas pessoas vivem a vida que é preciso fazer, e não a que querem fazer. Olhei pela janela para a minha Vision, o meu escape que assistia a tudo. O meu olhar cruzou-se com o da minha mulher; ela sabia que aquela mesa demasiado cheia, promovendo a gula, me tirava o apetite.

Após duas horas de teatro, o Compasso surgiu. O palavreado e os gestos repetidos anualmente fizeram o seu reset aos pecados, dando margem para outros tantos. Com o plafond pecaminoso zerado, a nossa tarefa estava cumprida. A nossa boa ação ateísta para com católicos não-praticantes estava feita.

O regresso foi em silêncio. O vento lavava-nos a mente, limpando-nos a alma da mesa farta e da conversa vazia. Olhámos o horizonte e detetámos uma coluna de fumo ao longe. Mais um incêndio, provavelmente provocado pelo foguetório cristão. A vaidade e a tradição continuavam a queimar o mundo, enquanto nós, em silêncio sobre duas rodas, encontrávamos a nossa própria paz na estrada.

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