Paradoxo de um casal ateu num ritual católico

A véspera de Páscoa na nossa mesa não trouxe a promessa de ressurreição, mas o peso da rotina. A pergunta dos meus enteados foi direta, quase mecânica: "A avó vai?". A resposta, todos a sabíamos antes de ser proferida. A minha sogra, prisioneira de uma doença com a qual não se conforma, escolheu o exílio. Prefere a escuridão e o silêncio, como se a morte fosse uma visita que se espera na penumbra. O seu único refúgio é o ecrã do televisor, sintonizado eternamente no canal Odisseia — uma janela para mundos distantes que eu próprio lhe abri e que ela agora exige em todos os aparelhos da casa, talvez para preencher o vazio com imagens de uma vida que já não a inclui.
Com a avó fora da equação, a minha mulher, numa reviravolta que nos deixou a todos — a mim inclusive — de queixo caído, lançou a bomba: "Vou de mota à casa da tua prima".
"De mota, mãe? Porquê de mota?".
A resposta foi um hino à liberdade, curto e definitivo: "Ora, porque eu quero!".
E assim, dois ateus confessos, que não precisam de templos para encontrar moralidade, mas que sabem respeitar a fé dos outros como quem admira um monumento vivo, prepararam-se para o ritual. Eu, que encontro mais tolerância nas Testemunhas de Jeová que me batem à porta do que em muitos que comungam aos domingos, vejo na Igreja a beleza de uma ruína habitada. Para muitos, é um lavadouro de almas intragáveis; para mim, é história e respeito pelo próximo.
Vestimo-nos a rigor. O dia era de vaidade pascal. As ruas, lavadas de lixívia e água numa "limpeza" ritualística, forçavam a nossa scooter Vision a atravessar pequenos riachos urbanos. Há quem lave a rua na frente de casa como quem lava os pecados, num automatismo rotineiro. As mesas, abastadas num exagero de comida que raia a gula, contrastavam com a suposta simplicidade cristã. Fomos, não por crença, mas por respeito a quem nos queria receber.
A mim, entusiasmava-me a ideia. Aperaltado em cima da scooter, como um figurante num filme italiano, senti o prazer puro. O percurso, rural e pontuado pelas inevitáveis lombas — essa praga local —, levou-nos por Tadim, onde a festa em honra de Nossa Senhora das Candeias e São Bartolomeu já se anunciava. Cantoria peca no palco, álcool a fluir, tudo com o patrocínio do empresariado local, muitas vezes o mesmo que impõe condições de trabalho infernais. A religião, mais uma vez, a branquear comportamentos duvidosos.
O sol estava esplêndido, mas a paz do trajeto era quebrada pela tensão da minha mulher, que não consegue descontrair sobre duas rodas. Num único momento de ultrapassagem, a ateísta soltou um instintivo e sonoro "Ai meu Deus!". Eu, por outro lado, deliciava-me. A camisa fina de verão, ao vento, dava-me a sensação deliciosa de estar em tronco nu sobre a Vision. O vento era a minha reza.
Chegados a Ruílhe, fomos recebidos pela imagem doce de uma avó e uma neta a terminarem um tapete de flores no portão. Um convite visual para o Compasso Pascal. Lá dentro, a espera longa prolongou a conversa em redor de uma mesa farta. O diálogo, contudo, depressa descambou para a política paroquial: alegados favorecimentos a casas que contribuíam com mais dinheiro para a Igreja. A anfitriã, suposta católica, atirou sem rodeios: "A Igreja quer é dinheiro e com dinheiro todos os jeitinhos se conseguem".
Ali estávamos, rodeados de católicos não-praticantes, cuja fé se revelava uma descrença generalizada na instituição que alimentavam. A necessidade de cumprir o ritual, de convidar e comer não por espontaneidade, mas "porque tem de ser", porque é tradição, deixou-me a pensar: estas pessoas vivem a vida que é preciso fazer, e não a que querem fazer. Olhei pela janela para a minha Vision, o meu escape que assistia a tudo. O meu olhar cruzou-se com o da minha mulher; ela sabia que aquela mesa demasiado cheia, promovendo a gula, me tirava o apetite.
Após duas horas de teatro, o Compasso surgiu. O palavreado e os gestos repetidos anualmente fizeram o seu reset aos pecados, dando margem para outros tantos. Com o plafond pecaminoso zerado, a nossa tarefa estava cumprida. A nossa boa ação ateísta para com católicos não-praticantes estava feita.
O regresso foi em silêncio. O vento lavava-nos a mente, limpando-nos a alma da mesa farta e da conversa vazia. Olhámos o horizonte e detetámos uma coluna de fumo ao longe. Mais um incêndio, provavelmente provocado pelo foguetório cristão. A vaidade e a tradição continuavam a queimar o mundo, enquanto nós, em silêncio sobre duas rodas, encontrávamos a nossa própria paz na estrada.