O barroco como antídoto à melancolia de sábado

O sábado acordou como um corpo que não nos pertence. A semana, esse metrónomo implacável de expedientes e prazos, deixou um rasto de moedeira nos ossos, um pedido mudo de lençóis e penumbra. Mas a liberdade, para quem a cultiva em duas rodas, não se compadece com o repouso absoluto. Mesmo quando a mente ainda se espreguiça, há um ritual que reclama urgência: lavar a poeira que a chuva fugaz deixou na carenagem. Ver a água correr pelo patamar é o primeiro ato de limpeza do olhar.
Depois, o Japão. Entre as páginas dos 3007 dias de André Moreira, o meu quarto em Braga dissolveu-se. Por momentos, não era a brisa do Minho que me tocava a face, mas a humidade densa de Quioto, o silêncio reverencial do Kiyomizu-dera e o pulsar metálico do metro de Tóquio. Foi a música lírica da Antena 2 que me trouxe de volta, lavando-me a cabeça. O sol, já em declínio, tingia o horizonte com uma promessa de frescura. Percebi, então, que a viagem literária precisava de um epílogo físico. "Já venho", disse para as paredes, e o comando da Vision foi o clique que acionou a minha própria ignição.
Lá fora, a cidade prepara-se para o seu espetáculo mais telúrico. O ar está espesso com o som da música religiosa; as ruas, habitualmente civis, rendem-se ao ensaio da Procissão dos Passos. Braga é, por estes dias, um monumento vivo que respira incenso e o aroma pecaminoso das rulotes de farturas. Sou um homem de espiritualidade, não de dogmas, mas dobro o joelho perante a beleza da pedra e do tempo. E foi na busca dessa beleza que rumei a Celeirós, ao encontro de uma ressurreição que acompanho de longe: a casa que deixou de ser ruína para se tornar luz.
Estaciono a Honda e contemplo-a. O que outrora era um esqueleto devoluto é hoje um manifesto de arquitetura civil com uma pulsante influência do barroco popular. É uma lição de como o passado pode ser resgatado sem perder a alma.
A fachada impõe-se pelo seu frontão recortado, aquele remate de "avental" que desafia a linha reta com curvas e contracurvas sinuosas, elevando-se ao centro para abraçar uma janela de sótão que parece vigiar a estrada. Há uma simetria rítmica quase musical na disposição dos vãos, uma herança clássica que o mestre-pedreiro de outros tempos soube suavizar com o gosto pela ornamentação.
O que mais fascina neste restauro é o contraste cromático. As molduras, que na versão mais erudita seriam de granito austero, aqui celebram o ocre e o amarelo, criando uma moldura solar para as portas de um vermelho profundo — um tom que, curiosamente, dialoga com o brilho da minha própria mota sob o céu encoberto. O soco azul acinzentado ancora a casa à terra, enquanto o branco imaculado das paredes reflete a luz baça deste fim de tarde, transformando o edifício num objeto editorial, uma página de uma revista de lifestyle dos anos 70 que alguém se esqueceu de fechar à beira da estrada de Trezeste.
Ali, entre o rés-do-chão que guarda memórias de lides rurais e o andar nobre que agora respira uma nova vida, compreendi que o meu cansaço matinal era apenas falta de perspetiva. Às vezes, precisamos de percorrer alguns quilómetros para perceber que a nossa cidade, entre procissões e casas recuperadas, é um caderno de sensações que nunca termina.
Regresso a casa com a cabeça lavada. O sábado já não dói; agora, apenas brilha.