De viseira aberta, onde a pedra encontra o sol

A luz de abril decidiu pregar-nos uma partida deliciosa. Às sete da tarde, o sol ainda vai alto o suficiente para nos convencer de que o calendário se enganou e que o verão se instalou, sem aviso, entre as lajes de pedra e o asfalto quente de Braga. Ao fim de um dia de trabalho, sentir o banco da scooter ainda morno, cozido por dez horas de claridade, é o primeiro sinal de que o recolhimento pode — e deve — ser adiado.
Dou o contacto. A vibração do motor da Honda percorre-me as mãos como um batimento cardíaco, um pulso mecânico que marca o início da descompressão. A marcha arranca e, com ela, o ritual diário da evasão.
Há uma cegueira que nasce da rotina. Passamos por muros de granito, limoeiros carregados e pátios silenciosos sem lhes tocar verdadeiramente a textura. Mas a scooter, com a viseira aberta, devolve-me o mundo em alta definição. O vento no rosto não serve apenas para contrariar os quase trinta graus acumulados; traz o cheiro da terra húmida das regas de fim de tarde, o rumor das folhas, a nitidez dos intervalos onde a vida se esconde.
Num desvio por oportunidade, descubro um recanto onde o tempo parece ter parado numa edição de luxo de uma revista de época. O amarelo dos limões a vibrar contra o muro, a geometria rigorosa das paredes de pedra, a prensa de vinho pousada como escultura industrial num museu improvisado. É uma harmonia de cores e arestas que só o olhar disponível consegue acolher.
Fico ali uns minutos, apenas a ver. Tanta gente atravessa os dias em linhas lisas, sem relevo, enquanto a beleza insiste em revelar-se nestas pequenas derivas. A Vision espera-me, fiel e silenciosa, como uma extensão da minha vontade de procurar o que está para lá da próxima curva.
Regresso a casa com o sol a baixar, mas com a alma carregada de luz. Amanhã será outro dia, mas este instante de liberdade urbana — este pequeno luxo de parar para olhar — já ninguém mo retira.