O pequeno milagre de março

9 março 2026
Mulher sorridente com capacete preto e casaco branco sentada numa scooter Honda Vision 110 bordeaux, no pavimento de pedra do Largo Carlos Amarante em Braga. O cenário é um largo ajardinado com canteiros de flores vermelhas, brancas e rosas. Ao centro, destaca-se uma fonte seiscentista em pedra, servindo de eixo visual entre a arquitetura barroca da Igreja de São Marcos, o antigo hospital e o céu azul com nuvens suaves.

O domingo de sol, já tingido pela antecipação da Semana Santa, pedia uma diabrura. Aproveitei o pretexto do calendário e o espírito do imprevisto que a define. Sem espaço para negociações, lancei o desafio: íamos sair, e o destino era o vento.

Ela nem pestanejou. Preparou-se como quem ruma ao Ártico, estreando as luvas que, estrategicamente, eu lhe tinha oferecido meses antes. Enquanto a Vision aquecia o motor num murmúrio de preliminares, ela surgiu — encasacada, de capacete aberto para evitar a clausura e com a sua malinha de textura peluda. Sob o banco da scooter, coube o mundo dela; sobre as rodas, o nosso.

Arrancámos com o sol a inclinar-se para o mar. "Para onde vamos?", perguntou-me em andamento. "Para lugar nenhum", respondi. E nesse "nenhum" coube tudo: a observação atenta de um prédio em construção, o diálogo que flui melhor sem o isolamento do vidro e do metal, a descoberta de que somos melhores observadores quando o corpo faz parte da paisagem.

A primeira paragem foi no Largo Carlos Amarante. Entre as papoilas espevitadas que decoram a cidade, a câmara captou-lhe a surpresa. Um registo estático de uma jornada em movimento. Seguimos pela Rua de São Lázaro, refazendo o caminho que, na noite anterior, nos levara à sofisticação de Schoenberg no Theatro Circo. Mas hoje, a música era outra: o som da cidade a acontecer.

No Jardim da Senhora-a-Branca, passando pelo carvalho japonês da entrada, entre brincos de croché e doçaria de Barcelos, o capacete na mão tornou-se um acessório de moda e conveniência.
“Dá jeito para as compras”, disse ela — um disfarce quase perfeito para esconder que, afinal, a experiência a tinha capturado.

Regressámos com o céu a alaranjar e a temperatura a exigir o conforto do lar. Não precisei de perguntas. No tom de voz dela, ao tirar as luvas, percebi que a conversão estava feita. Às vezes, a liberdade só precisa de um empurrão e de um par de rodas.