O sul que corre para norte

3 maio 2026
Fotografia em plano médio da frente de uma scooter Honda Vision vermelha estacionada num passeio de cimento junto a um relvado. Ao fundo, um grande outdoor anuncia o concerto “John Luther Adams & Philip Glass por Orquestra do Algarve”, com a imagem de um maestro em destaque. O cenário inclui edifícios em construção sob luz suave de fim de tarde e um céu nublado.

Há certas tardes em que Braga se veste de uma luz de papel de seda, e a minha Honda Vision parece deslizar por um cenário que não é apenas asfalto, mas uma sequência de fotogramas de uma cidade que respira entre o betão e o sonho. Seguia pela variante sul, no ritmo de quem não tem pressa porque o caminho é o próprio destino, quando fui abruptamente interpelado.

Ali, num outdoor de saída para Nogueira, o contraste era absoluto: a rudeza da estrutura metálica versus a elegância de um maestro que, de batuta em riste, parecia querer reger o trânsito da cidade. O cartaz anunciava a vinda da Orquestra do Algarve ao Theatro Circo. Sorri por baixo do capacete. Há dois meses que o meu exemplar desta “edição” de maio está reservado. Tratei de assegurar um camarote inteiro; desta vez, não seremos apenas dois. Vou levar comigo quem nunca sentiu o peso do silêncio de uma sala de espetáculos antes da primeira nota.

O Algarve sobe ao Minho para nos falar da Amazónia.

É uma inusitada conjunção geográfica e sensorial. Sob a direção de Martim Sousa Tavares, o ciclo Contraponto traz-nos o minimalismo pulsante de Philip Glass e a ecologia sonora de John Luther Adams. É música que não se limita a ser ouvida; ela flui.

O programa é um mapa hídrico: cada partitura de Glass dedica-se a um rio da maior floresta tropical do mundo. Do Japurá ao Rio Negro, até desaguar na fonte de vida que é o Amazonas. Já Adams apresenta-nos Become River, uma obra onde a orquestra se transforma numa rede de afluentes musicais que descem, como uma nascente, para nos inundar os sentidos.

Gosto desta ideia de “leitura lenta” aplicada à música. Tal como no blogue procuro fotografar com palavras, estes compositores pintam ecossistemas com sons. E é este entusiasmo, quase infantil e boémio, que pretendo contagiar aos meus convidados. Quero que sintam que a música erudita não é um museu de peças intocáveis, mas um rio vivo onde nos podemos banhar.

Dizem que os bilhetes estão quase esgotados. O Minho, com a sua hospitalidade granítica e generosa, prepara-se para receber as águas do Sul. No dia 30 de maio, trocarei o capacete pelo aprumo do Theatro Circo. Mas, até lá, continuarei a cruzar a cidade na minha scooter, sentindo que, de alguma forma, o Algarve já chegou. Foi como se tivesse ido lá com a minha Vision, sem sair das curvas de Braga.

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