O equívoco de Wabi-Sabi e outras curas para a chuva

14 fevereiro 2026
Escadaria interior de madeira de traça antiga na Casa Rolão em Braga, com paredes de pedra clara, um biombo decorativo com padrões florais de estilo vintage e uma corda de sinalização escura.

Braga é, por herança e destino, o penico do céu. Após semanas de um inverno que teima em inundar o centro do país, hoje o céu concedeu-nos uma nesga de trégua. Um sábado de sol isolado, um intervalo luminoso entre frentes frias, que exigia, mais do que sugeria, a libertação da garagem.

Montei a Honda Vision com o destino traçado na mente: a Casa Rolão, na Avenida Central. Procurava o diálogo entre o despojamento da Guiné-Bissau, no olhar fotográfico de Joana Mendes, e a estética japonesa do Wabi-Sabi — aquela beleza do imperfeito e do efémero que as Kokedamas tão bem traduzem.

A chegada ao centro, porém, recorda-nos que a modernidade é, por vezes, atabalhoada. Na Avenida Central, os lugares que deveriam acolher o civismo das bicicletas são devorados por uma praga de trotinetes em queda livre, como peças de dominó esquecidas. Contornei a Igreja da Senhora-a-Branca, num exercício de paciência sobre duas rodas, até encontrar refúgio para a mota na Rua da Restauração. É um improviso constante para quem escolhe as duas rodas numa cidade que ainda desenha o chão a pensar no automóvel.

Scooter Honda Vision 110 vermelha estacionada num lugar reservado a motociclos na Rua da Restauração em Braga, com o cenário urbano de fundo.

No Largo da Senhora-a-Branca, uma surpresa: a feira de objetos vintage e artesanato que descobri em janeiro quadruplicou de vigor. Há uma vitalidade nova a pulsar no asfalto.

Subi ao primeiro piso da Casa Rolão — essa joia rococó de André Soares, onde outrora se negociava a seda — em busca da exposição "Entre o Céu e a Terra". Mas o Wabi-Sabi, fiel à sua natureza de "presença invisível", não estava lá. Entre a livraria e a loja de roupa, ninguém sabia do paradeiro das bolas de musgo. A agenda cultural, por vezes, joga ao gato e ao rato com os visitantes. Restou-me o contacto da artista alemã, a.menhia, e a promessa de um regresso.

Desci à Centésima Página. Ali, entre o cheiro a papel antigo e o vapor das bebidas quentes da cafetaria, as "Paisagens que descalçam" devolveram-me o Norte. É um espaço de massa crítica, de gente que se demora, onde as paredes de pedra abraçam a descontradição de quem lê e de quem sente.

Não houve exposição fantasma que estragasse o dia. O caminho de regresso trouxe-me o som do telemóvel e o melhor dos destinos. Fui encontrar a minha mulher, a minha exposição favorita, ajudando-a na jardinagem num cliente. No final das contas, entre a arte japonesa e a terra húmida de um jardim real, a vida resolveu-se com a simplicidade de quem sabe que o sol, tal como as crónicas, é para ser aproveitado enquanto dura.