O pulso da cidade no lado certo da memória

3 janeiro 2026
Grande plano do espelho retrovisor da Honda Vision que reflete o céu azul e a encosta verde do Monte do Sameiro, com a mancha urbana de Braga vista a partir do Monte do Picoto

Saí de casa entediado, a precisar de fazer caminho sem pressa. A vontade era tanta que, ao fim da rua, a Vision avisou-me, com aquela luz laranja intermitente, que o comando da mota tinha ficado para trás. Não hesitei. Regressei a casa com a certeza de que o ia encontrar ali, pendurado na fechadura do portão da garagem, à minha espera.

De volta ao paralelo da rua, a trepidação ainda não era suficiente para sacudir o vazio do meu cérebro. Segui por um alcatrão recente, mas já ferido por desníveis e tampas de esgoto que cedem ao tempo; ninguém parece querer saber, mas eu sigo, ainda que mentalmente adormecido. Pelo caminho, o cheiro a estrugido vindo do Café Mélinha despertou-me os sentidos, trazendo a primeira certeza: ia olhar para a cidade, verdadeiramente, pela primeira vez este ano.

Scooter vermelha Honda Vision estacionada junto a um muro de pedra rústico com a inscrição monumental Bracara Augusta Cidade Bimilenar em letras metálicas

Em Lomar, um pequeno sinal de resistência analógica: uma placa numa vedação dizia "vendo vinis". Sorri. É bom saber que não sou o único por aqui a preferir o toque da agulha ao algoritmo.

Com o ritmo certo, longe do folclore barulhento dos escapes e da velocidade frenética, decidi ver Braga de cima. Escolhi o Miradouro do Picoto pela sua vista de 360º. É perto o suficiente para manter a conexão com o movimento, mas alto o bastante para oferecer o silêncio que me desperta. Lá do topo, a cidade parece um brinquedo. Senti a liberdade a chegar e não quis interrompê-la; segui caminho sem sequer ter desligado aquela sinfonia mecânica que murmurava no silêncio do monte.

Perspetiva de uma scooter Honda Vision vermelha estacionada num ângulo apertado em paralelo, entre dois carros numa rua urbana, com um parquímetro em primeiro plano desfocado à esquerda

Desci pela Avenida Dr. Porfírio da Silva e entrei na 31 de Janeiro. No final da avenida, o semáforo vermelho revelou-me um tesouro inesperado no Jardim da Senhora-a-Branca: uma feira de livros, objetos vintage e artesanato. A ansiedade subiu. No centro, as motas são muitas vezes invisíveis e, embora a complacência policial permita o estacionamento em zonas pedonais, preferi o rigor: entalei a Vision entre dois lugares de automóveis.

Na feira, o cheiro dos sabonetes artesanais fez cócegas aos neurónios. Soube pela vendedora que era o primeiro dia daquele evento, que se repetirá todos os primeiros fins de semana de cada mês. Guardei a informação como quem guarda um mapa do tesouro.

Plano do teto neoclássico ornamentado com pinturas e sancas da entrada da Casa do Rolão, iluminado por um candeeiro esférico moderno de papel

De capacete na mão, medi o pulso à Avenida Central até chegar à Livraria Centésima Página. A simpatia começou logo à porta, quando alguém a segurou para eu passar, como se a minha entrada estivesse destinada. Antes de avançar, parei para admirar o teto da entrada da Casa do Rolão, onde a livraria habita. No interior, senti um misto de sensações: a magia de um lugar que consegue ser, ao mesmo tempo, introspetivo e vibrante.

Saí de lá com uma promessa silenciosa: voltarei com a minha mulher para um pequeno-almoço no jardim das traseiras. Será o pretexto perfeito para a ter de novo como passageira.

Vista a partir de uma scooter Honda Vision, parada num semáforo vermelho na Avenida da Liberdade em Braga, enquadrando o fluxo de trânsito urbano, edifícios residenciais com comércio no rés-do-chão, com o Monte do Picoto ao fundo sob um céu nublado

O regresso fez-se pelo túnel, a nova Via da Liberdade. Já na Avenida da Liberdade, ao fundo, o Monte do Picoto, onde estivera minutos antes, vigiava o meu caminho. Cruzei a Avenida da Imaculada Conceição e a Rua Cidade do Porto, enfrentando a habitual incivilidade de quem ainda ignora que as motas podem circular nos corredores dos autocarros.

Cheguei a casa limpo. Passeio higiénico é, de facto, um dos termos mais felizes que o mundo alguma vez inventou.