O pulso da cidade no lado certo da memória

Saí de casa entediado, a precisar de fazer caminho sem pressa. A vontade era tanta que, ao fim da rua, a Vision avisou-me, com aquela luz laranja intermitente, que o comando da mota tinha ficado para trás. Não hesitei. Regressei a casa com a certeza de que o ia encontrar ali, pendurado na fechadura do portão da garagem, à minha espera.
De volta ao paralelo da rua, a trepidação ainda não era suficiente para sacudir o vazio do meu cérebro. Segui por um alcatrão recente, mas já ferido por desníveis e tampas de esgoto que cedem ao tempo; ninguém parece querer saber, mas eu sigo, ainda que mentalmente adormecido. Pelo caminho, o cheiro a estrugido vindo do Café Mélinha despertou-me os sentidos, trazendo a primeira certeza: ia olhar para a cidade, verdadeiramente, pela primeira vez este ano.

Em Lomar, um pequeno sinal de resistência analógica: uma placa numa vedação dizia "vendo vinis". Sorri. É bom saber que não sou o único por aqui a preferir o toque da agulha ao algoritmo.
Com o ritmo certo, longe do folclore barulhento dos escapes e da velocidade frenética, decidi ver Braga de cima. Escolhi o Miradouro do Picoto pela sua vista de 360º. É perto o suficiente para manter a conexão com o movimento, mas alto o bastante para oferecer o silêncio que me desperta. Lá do topo, a cidade parece um brinquedo. Senti a liberdade a chegar e não quis interrompê-la; segui caminho sem sequer ter desligado aquela sinfonia mecânica que murmurava no silêncio do monte.

Desci pela Avenida Dr. Porfírio da Silva e entrei na 31 de Janeiro. No final da avenida, o semáforo vermelho revelou-me um tesouro inesperado no Jardim da Senhora-a-Branca: uma feira de livros, objetos vintage e artesanato. A ansiedade subiu. No centro, as motas são muitas vezes invisíveis e, embora a complacência policial permita o estacionamento em zonas pedonais, preferi o rigor: entalei a Vision entre dois lugares de automóveis.
Na feira, o cheiro dos sabonetes artesanais fez cócegas aos neurónios. Soube pela vendedora que era o primeiro dia daquele evento, que se repetirá todos os primeiros fins de semana de cada mês. Guardei a informação como quem guarda um mapa do tesouro.

De capacete na mão, medi o pulso à Avenida Central até chegar à Livraria Centésima Página. A simpatia começou logo à porta, quando alguém a segurou para eu passar, como se a minha entrada estivesse destinada. Antes de avançar, parei para admirar o teto da entrada da Casa do Rolão, onde a livraria habita. No interior, senti um misto de sensações: a magia de um lugar que consegue ser, ao mesmo tempo, introspetivo e vibrante.
Saí de lá com uma promessa silenciosa: voltarei com a minha mulher para um pequeno-almoço no jardim das traseiras. Será o pretexto perfeito para a ter de novo como passageira.

O regresso fez-se pelo túnel, a nova Via da Liberdade. Já na Avenida da Liberdade, ao fundo, o Monte do Picoto, onde estivera minutos antes, vigiava o meu caminho. Cruzei a Avenida da Imaculada Conceição e a Rua Cidade do Porto, enfrentando a habitual incivilidade de quem ainda ignora que as motas podem circular nos corredores dos autocarros.
Cheguei a casa limpo. Passeio higiénico é, de facto, um dos termos mais felizes que o mundo alguma vez inventou.