O tinto, o voto e o rio: uma crónica de domingo

A manhã de domingo instalou-se com a bonomia de um ritual antigo. Em Braga, os dias de eleições possuem uma quietude própria, uma suspensão do tempo que convida ao pequeno-almoço tardio e ao pão que o padeiro, num gesto de cortesia dominical, entrega com o sol já alto. O dever cívico cumpriu-se de carro, uma concessão à companhia da mulher, guardando a minha Honda para o momento em que a solidão se torna necessária.
O almoço foi um manifesto de resistência: papas de sarrabulho e rojões, escoltados por um tinto medieval de Ourém. Um vinho de "matricialidade" antiga, selado a cera, com a cor granadina de um segredo bem guardado e taninos que acariciam o palato antes de um final guloso. Foi este o combustível — complementado por um café de Campo Maior — que me lançou à estrada sob um céu de um cinzento harmonioso, uma aguarela de inverno que prometia tréguas à chuva.
Cruzei a cidade sem a ditadura dos ponteiros, sentindo o pulsar de uma Braga tranquila. A Honda Vision, extensão sensível dos meus sentidos, deslizava por entre semáforos amigos e as variantes que permitem o prazer da velocidade.
O regresso a casa, porém, obrigou à paragem reflexiva. Debruçado sobre o Rio Este, a escala da realidade impõe-se. O caudal vai alto, fustigado pelas chuvas, mas é a cor da água que fere a vista. O "emporcalhamento" sistemático, de tons maléficos, revela um rio que sobrevive entre desmoronamentos e a indiferença das descargas ilegais. Ali, sobre o parapeito de ferro, a minha mota brilha com uma dignidade quase heróica contra o cenário baço. É o paradoxo da nossa modernidade: criamos máquinas de uma beleza impecável enquanto permitimos que as nossas artérias naturais se tornem cinzentas e doentes.
Abasteci a Vision, precavendo o dilúvio que o céu já desenha para a semana. Ela está pronta. O rio, esse, espera por dias de maior transparência.