O destino invisível das palavras

Sempre imaginei o blogue como um objeto volátil — uma sequência de luz e código que atravessa o asfalto de Braga para se perder no brilho dos ecrãs. Mas o papel tem uma gravidade própria, uma insistência em permanecer que o digital desconhece.
Recentemente, o meu olhar caiu num registo de uma crónica minha resgatada do fluxo binário e depositada com cuidado numa bolsa de arquivo. Ali, entre o mogno de uma estante e a sobriedade de uma pasta de coleção, a minha Honda Vision 110 pareceu ganhar um novo peso.
Prefiro esta existência clandestina. Ver o logótipo minimalista e a ilustração da scooter — esse pequeno selo de autoridade técnica e estética — impressos e guardados, é sentir que o percurso encontrou repouso.
Este espaço não precisa de ser um volume encadernado para ser lido devagar. Basta que alguém, algures, sinta que aquelas palavras merecem o refúgio de uma gaveta, o abrigo do papel de alta gramagem, ou a companhia de outras revistas de época.
É o leitor quem faz a transmutação. Onde eu ofereço acessibilidade, o leitor imprime permanência. Onde publico instante, ele cria duração. O digital democratiza; o papel consagra.
No fim de contas, o maior elogio que se pode fazer a um "caderno de sensações" urbano não é o número de partilhas, mas o silêncio de uma folha que descansa numa estante, pronta para ser redescoberta quando o mundo lá fora decidir, finalmente, abrandar.