O azul que cura

22 fevereiro 2026
Fotografia de uma farmácia moderna com fachada em blocos de vidro verde translúcido, sob um céu azul limpo. Junto a ela, uma scooter Honda Vision vermelha está estacionada num pátio de cimento com pilares de delimitação pretos e amarelos. No asfalto em primeiro plano, vê-se uma tampa de saneamento circular e a sombra projetada de um sinal de passadeira, com prédios residenciais ao fundo.

Há manhãs em que a cidade não se limita a acordar; ela decide redimir-se de todos os dias cinzentos que nos impôs. Braga amanheceu assim, com um céu de um azul infinito, daqueles que parecem estendidos sobre os telhados como uma tela de seda.

O meu trajeto é rotineiro, mas a motivação é profunda. Vou à farmácia, não por mim, mas por quem depende de um cuidado que começou cedo demais, numa incubadora onde o destino se atravessou. É uma missão feita de silêncio e constância. A cada curva, a Honda Vision desliza entre o contraste térmico da manhã: a sombra ainda guarda o frio húmido do inverno, mas o sol já tem força para secar o asfalto e aquecer as luvas.

Pela primeira vez em muito tempo, o ruído do motor não é protagonista absoluto. Ouvem-se os pássaros. Parecem partilhar uma alegria súbita, uma euforia de quem também sobreviveu à chuva. A cidade espreguiça-se com delicadeza. O trânsito começa a pulsar, mas sem a urgência agressiva dos dias de expediente. É um movimento orgânico, impulsionado pela energia deste astro maior que hoje decidiu aproximar-se.

Parar a mota diante daquele vidro verde translúcido é um exercício de observação. Ali, entre o rigor da medicação e a leveza da manhã, percebo que a liberdade não é apenas ir para longe. É saber que cada quilómetro percorrido neste azul é um gesto de amor que se renova — um trajeto que se cumpre bem porque o destino é o cuidado de quem mais amamos.