O chão almofadado do tempo

O sol deste final de fevereiro possui a temperatura exata da nostalgia. É um sol baixo, de luz intensa, que nos abraça com a mesma dualidade de um SPA: o calor que relaxa os músculos e a sombra húmida que, num sopro, nos recorda a crueza do inverno. Chego a casa e o céu é um degradê de azul que se recusa a ceder ao breu. O horizonte estica-se, tal como a voz da minha mulher ao telefone — um som cansado, de braços estendidos, chamando pelo conforto do encontro.
Pressiono o botão de arranque da Vision. O motor acorda sem esforço, pronto para a estrada, movido por esse impulso solar que nos empurra para junto de quem queremos estar. À chegada, os pássaros mantêm o seu concerto, indiferentes ao murmúrio da scooter, celebrando a lenta despedida da tarde.
Ela pede-me companhia. Há um novo trabalho no horizonte, mas há também o medo do desconhecido, dos "bichos", do silêncio de uma rua sem saída. Caminhamos por entre o que resta de um antigo convento. Não preciso de documentos para o ler; a arquitetura fala por si. A torre sineira que já não chama ninguém, o jardim interior agora entregue às silvas e, numa lateral discreta do edifício, uma pequena janela que denuncia o confessionário de outros tempos. É um esqueleto de pedra a ser devorado pelo verde. No muro, o rosa das japoneiras resiste à sombra, pontuando a tarde com uma delicadeza que o frio ainda não conseguiu domar.
Ao dobrar uma esquina, o tempo pára. Um plátano, talvez bicentenário, ergue-se como o verdadeiro guardião do lugar. O seu tronco tem a espessura dos séculos. A seus pés, décadas de folhas caídas criaram um chão almofadado, uma passadeira orgânica onde os nossos pés se afundam e desaparecem, como se a terra nos quisesse absorver para a sua própria cronologia.
A luz desvanece por completo. Os pássaros calam-se, recolhidos. Monto a Vision com o eco daquele abandono ainda na mente. Sigo a carrinha dela, mantendo a distância certa com o reflexo do meu farol a brilhar na sua traseira, como que nos mantendo ligados, enquanto o plátano e o confessionário ficam para trás, mergulhados na noite de Braga, guardando segredos que só quem pára a olhar consegue escutar.