O sabor do regresso

O cacifo metálico, frio e impessoal, guarda mais do que o vestuário de trabalho. No topo, como uma sentinela silenciosa que observa o desenrolar das horas de expediente, o meu capacete repousa. É o único objeto ali que mantém a promessa de um horizonte, enquanto lá fora a cidade se espreguiça sob uma morrinha persistente e as cotações do mundo tentam ditar o ritmo do nosso cansaço diário.
Cumprida a obrigação, o gesto torna-se quase litúrgico: calçar as luvas, sentir o peso do capacete e despertar o motor. O som da combustão é o primeiro sinal de alívio, a primeira fenda na redoma da rotina. É a corrida necessária para casa, o escape antes que novas correntes se inventem.
Mas o verdadeiro culminar do dia não acontece no asfalto. Acontece mais tarde, quando a luz da minha secretária aquece o ambiente e o corpo finalmente abranda. Foi aí, entre o conforto do jantar e o silêncio da noite, que recebi a brisa fresca: Fernando Alves regressou.
Ouvir o Fernando é regressar a uma rádio de pormenores, feita de tempo, textura e silêncio. É a confirmação de que o mundo, apesar da pressa e da selvajaria dos dias, ainda pode ser narrado com a calma de quem vê o que mais ninguém nota. O seu regresso à TSF não é apenas um evento radiofónico; é o restabelecimento de um serviço público de poesia diária.
Obrigado por estares de volta, Fernando. As nossas viagens, agora, têm outra banda sonora.