O céu, a terra e uma Honda no caminho

Começou com um dedo apontado e uma revelação inesperada.
— É uma Honda! — disse a criança, com a autoridade que só os cinco anos permitem.
Desarmou-me. O logótipo que, para mim, é extensão — quase pele — era, para ele, descoberta pura. A manhã previa estrada, mas ficou retida entre a espuma da lavagem e o peso institucional de uma cidade ocupada por paradas militares e ecos de conflitos distantes. Braga, em dia de cerimónias, transforma-se num tabuleiro de xadrez onde a minha Vision 110 procura, paciente, a sua aberta.
A tarde trouxe recompensa. O trânsito, num gesto raro de cortesia, abriu caminho até à Senhora-a-Branca. Estacionar é, nestes dias, exercício de sorte; hoje a cidade colaborou. Atravessei os jardins com a calma de quem sabe que o tempo é finito — mas elástico — e subi ao primeiro piso da Casa Rolão.
Lá dentro, o ruído das guarnições deu lugar ao silêncio cúmplice entre a.menhia e Vânia Cardoso. As pinturas abstratas da artista alemã — poemas visuais suspensos em azuis e turquesas — reclamam o “Céu”. Logo abaixo, em diálogo mudo, as kokedamas de Vânia ancoram-nos à “Terra”. Esculturas vivas, aqui preservadas: flores secas, desidratadas, matéria que aceita o seu próprio declínio. Há nelas qualquer coisa de wabi-sabi — a beleza da imperfeição, a serenidade da impermanência.
Saí com a temperatura a descer e o espírito aquecido. No regresso, mergulhei no fluxo coletivo de uma cidade que se recolhia sob o sol poente. Entre o céu e a terra, a minha Honda é apenas isso: o fio discreto que me permite estar — atento — no lugar exato onde as coisas acontecem.