O equilíbrio que fica

3 março 2026
Plano detalhado através de uma abertura estreita numa muralha de pedra rústica e escura. Através da fenda, vê-se um trecho urbano de Braga com edifícios antigos de fachadas coloridas em tons de amarelo e vermelho, sob um céu azul limpo. No centro do enquadramento, um semáforo de trânsito destaca-se de forma geométrica contra o céu, simbolizando a pausa e o olhar atento sobre a cidade.

O mundo, lá fora, insiste em desabar. Transformaram a existência num casino geopolítico onde a insanidade humana joga fichas que não lhe pertencem. O quotidiano tornou-se um moedor de sanidade que corrói o nosso poder mental. É um tempo de sombras, de ecrãs frenéticos e de olhares que se fixam, cada vez mais, no chão.

É precisamente nesta asfixia que a minha mota deixa de ser apenas um meio de transporte e se afirma como um instrumento de insurreição poética.

Conduzir é uma questão de perspetiva. Quem caminha cabisbaixo, prisioneiro da gravidade e da rotina, vê apenas o asfalto e os obstáculos. Sobre duas rodas, a cidade rearranja-se. A procura constante de novos ângulos — a forma como a luz de Braga incide numa fachada ao amanhecer, o recorte de um telhado contra o céu, o fluxo orgânico do trânsito — torna a cidade sempre diferente. O que antes era cenário estático revela-se um mundo em mutação, uma realidade que só se entrega a quem ousa olhar para cima e para a frente.

Mas a viagem começa antes do movimento. A base de uma viagem de mota é o equilíbrio. É um pacto físico e mental entre máquina e condutor. Um exercício de foco absoluto onde a mente, habitualmente dispersa, é convocada à presença total.

O mais belo deste processo é que o equilíbrio conquistado na estrada não se dissolve quando desligo o motor. Ele permanece. Uma vibração subtil que fica no corpo mesmo depois de estacionar. O caos do mundo continua lá fora, mas já não me atravessa da mesma forma. Trago comigo o centro de gravidade que a condução me devolveu.

Não escrevo sobre especificações técnicas nem sobre a última novidade do mercado. Escrevo sobre foco. Sobre a disciplina suave de manter a mente sã. Sobre escolher estar inteiro num tempo que nos quer fragmentados.

Dedicar tempo a estes gestos simples é o meu ato de resistência. A viagem que é, em si mesma, equilíbrio. A direção clara para onde quero ir e com quem quero estar. A atmosfera que permanece, esse rasto silencioso de paz que a mota deixa em mim.

Mesmo em tempos sombrios, escolho cultivar a luz. Escolho a estrada. Escolho o equilíbrio. O resto é ruído. Conduzir é o meu modo de permanecer lúcido num tempo que nos quer dispersos.