O despertar da fera adestrada

A minha rua não é apenas um caminho de paralelo; é um corredor de afinidades mecânicas. Há uma certa solidariedade silenciosa entre quem escolhe a mesma asa no depósito — embora as semelhanças, às vezes, terminem logo ali, no metal.
O silêncio da vizinhança é rasgado por um espreguiçar violento. É a Honda do meu vizinho. Acorda brava, com o humor de quem foi arrancada de um sonho profundo. Um barulho rouco, extrovertido, quase uma provocação acústica que ecoa nas fachadas.
Ele, conhecedor desse feitio difícil, deixa-a ali sozinha, a resolver a própria fúria.
Observo-a da janela como quem estuda uma fera num jardim botânico. Ali está ela: vibrante, impaciente. Mas, à medida que o motor aquece, a má vontade dissipa-se. As rotações descem. O batimento torna-se rítmico, quase civilizado.
A fera transforma-se numa montada dócil, à espera do comando.
É então que ele aparece, monta-a com a naturalidade de quem domina o fogo, e partem juntos para aproveitar o sol de Braga. Ela segue branda — mas eu sei, e ele sabe, que algures na estrada ele voltará a tirá-la do sério.
Só porque pode.
Só porque a liberdade também se mede em decibéis.
Olho para a minha Vision, ali ao lado, pronta a deslizar sem alaridos, e pergunto-me se não devia aprender alguma coisa com aquele vizinho.
Talvez a vida precise, de vez em quando, de um mau acordar para que o resto do dia valha a pena.