O académico do asfalto

6 fevereiro 2026
Primeiro plano detalhado do poisa-pés e da coluna central de uma scooter sob condições de chuva e granizo. A superfície de plástico texturizado está coberta por gotas de água brilhantes e pequenas acumulações de pedras de granizo brancas e redondas, concentradas nos cantos superiores da plataforma. A luz é suave e fria, típica de um dia de tempestade de inverno.

Li algures que quem é feliz não quer saber se é verão ou inverno; que o tempo, para os satisfeitos, é apenas uma extensão do que sentem. Em Portugal, o tempo é muitas vezes tratado como uma patologia, um pretexto para o lamento crónico. Mas aqui, sobre a sela, a perspetiva muda.

O granizo, quando bate, tem um ritmo próprio. Não é o tamborilar contínuo da chuva miúda, mas uma percussão tátil que o meu fato de PVC — agora cansado, com as costuras a renderem-se entre as pernas e nos punhos — teima em filtrar. Há qualquer coisa de profundamente terapêutico neste estímulo sensorial. Este é o meu segundo inverno sobre duas rodas e, curiosamente, o segundo ano em que o meu corpo ignora as gripes e as maleitas da estação. Parece que o calo do frio controlado me temperou o organismo. Talvez a felicidade urbana more nesta indiferença ao barómetro.

Mas a rotina de vestir e despir as calças de plástico tornou-se um exercício de paciência que já não me seduz. Procuro a simplicidade. Encomendei uma capa, daquelas que se vestem num gesto único, cobrindo-me até aos pés como uma lona protetora. Nas imagens, o preto da peça confere-me um ar de capa académica; trocarei o visual de astronauta utilitário pelo de um tunante motorizado, deslizando pelas ruas de Braga com a solenidade de quem transporta uma tradição.

O alerta de entrega diz que chegará entre março e abril. Virá com as águas que fecham o inverno, talvez tarde demais para o rigor deste janeiro e fevereiro, mas a tempo de ser testada antes que o sol reclame o asfalto. Até lá, sigo com o meu fato remendado, as luvas que mantêm a pele íntegra e a balaclava que guarda o calor do rosto. O astronauta ainda tem algumas missões pela frente antes de dar lugar ao académico.

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