O mundo num depósito de trocos

Há viagens que começam muito antes do motor arrancar. A minha começou no ecrã de um portátil, entre comparativos técnicos e a busca por um conforto que a minha velha companheira de estrada já não oferecia. Procurava uma solução para as variantes de Braga, algo que não tremesse perante o perfil de autoestrada, mas acabei por encontrar o mapa de uma certa humanidade.
A Honda Vision 110, antes de chegar num contentor vindo do Oriente, apresentou-me a personagens que parecem saídas de um filme de domingo à tarde. Conheci um cavalheiro na ruralidade inglesa que, num acesso de pudor tipicamente britânico, escondia a eficiência da sua mota. Tinha vergonha de pagar "trocos" nas bombas de gasolina — o depósito de 4,9 litros era demasiado humilde para o protocolo do posto de abastecimento. Imaginem: enchia jerricãs de carro para, no refúgio da garagem, alimentar a sua Vision sem testemunhas. O ridículo transformado em charme.
De Inglaterra saltei para Bucareste. Nas mãos de Arthur Voicu, a Vision deixou de ser uma citadina elegante para se tornar um trator de inverno, cortando a neve romena com pneus de cravo e uma resiliência de aço. Foi ali, entre o frio de Leste e a timidez inglesa, que percebi que a minha escolha estava certa — como quem encontra calor no sítio mais improvável.
Mas a viagem não parou na técnica. Aprofundar a relação com a Honda é, inevitavelmente, olhar para o Japão. Hoje, 11 de fevereiro, celebra-se o Dia da Fundação Nacional do Japão, e a coincidência não me escapa enquanto pouso os olhos na minha mesa de trabalho, onde o Japão parece ter pousado também. Identifico-me com essa estética do detalhe e com a reverência pelo objeto.
Sobre a secretária, os dois volumes de André Moreira, "3007 dias no Japão", funcionam como janelas abertas. O primeiro volume traz-me a força do grande Torii de Miyajima, aquele portal flutuante que separa o sagrado do mundano; o segundo, a serenidade das cerejeiras em flor — Sakura —, o efémero tornado eterno. São relatos de um português que trocou o conhecido pela autenticidade do real, revelando-me o Japão que não vem nos postais: o choque, a adaptação e o quotidiano de quem vive a cultura a partir de dentro.
Dizem que as motas servem para encurtar distâncias. A minha fez o oposto: alargou o meu horizonte sem eu sair do lugar. Entre as páginas de um livro e o ronco discreto do motor, a minha pequena scooter levou-me a dar a volta ao mundo. Nada mau para quem, no fundo, só queria chegar um pouco mais descansado ao centro de Braga.