O calor dos citrinos em pleno inverno

3 fevereiro 2026
Vista ao nível do solo num pátio de empedrado húmido. Em primeiro plano, caixas de plástico verdes e cinzentas transbordam de laranjas, tangerinas e couves verdes frescas. Ao fundo, um portão de ferro verde aberto revela uma scooter Honda Vision vermelha estacionada no exterior, enquadrada por muros de pedra e vegetação densa.

O privilégio de ter uma mulher esquecida é, na verdade, a minha maior sorte. Cada chave deixada para trás ou casaco ignorado no cabide é o rastilho perfeito, o pretexto nobre que me faz montar a Vision em direção a ela. Ela esquece o acessório, mas lembra-se de mim. E nesse esquecimento, oferece-me o caminho.

O pomar esperava-nos, guardado por um portão teimoso que insistia em desafiar a nossa entrada. Vencido o obstáculo, a natureza entregou-se. Tangeras, tangerinas e laranjas, numa explosão de laranjas garridos, foram preenchendo as caixas de plástico — velhas conhecidas de uma frutaria qualquer, agora promovidas a cofres de frescura. Ao lado, a penca, verde e viçosa, completava o quadro desta colheita improvisada.

Ela pediu que eu ficasse mais um pouco. Mal sabia que me concedia um desejo mudo. Fiquei a sorver o aroma ácido e doce que pairava no ar, a provar a fruta colhida pela mão dela, com aquele sabor que nenhuma prateleira de supermercado consegue replicar. Para quem vive do pormenor, aquele cenário era pura cafeína sensorial.

Deteve-me o olhar no musgo que abraça os troncos e os muros de pedra, na terra que, saturada pelas chuvas recentes, cede suavemente sob o peso dos passos. O empedrado, escuro e húmido, brilhava sob a luz difusa, enquanto o ar fresco do Minho nos limpava os pensamentos.

Vivemos nesta nesga de tempo, entre duas nuvens de chuva, onde a natureza se deixa tocar. Não há inverno, por mais rigoroso ou cinzento, que consiga arrefecer o calor de estarmos exatamente onde queremos estar, com quem escolhemos para dividir a estrada.