O manto do tunante

19 fevereiro 2026

O Carnaval antecipou-se, não por calendário, mas por encomenda. O alerta de entrega, que prometia um desfecho apenas para a primavera, decidiu ignorar a lógica dos estaleiros e aterrou à minha porta em pleno fevereiro. A capa chegou a tempo de receber, com a fleuma de um lorde, as últimas investidas da depressão Pedro.

Há uma satisfação quase infantil em ver a chuva bater no tecido negro e escorrer, impotente, enquanto o corpo permanece seco sob aquela lona protetora. O gesto é agora único, contínuo, coreografado. Deixei para trás a luta hercúlea de descalçar botas à beira da estrada para enfiar calças de plástico; abdiquei do visual de astronauta utilitário pela silhueta fluida do académico do asfalto. Ganhei minutos que antes se perdiam na berma.

Sobre a Vision, sinto que este novo traje — este manto de tunante motorizado — me apurou os sentidos. Liberto da armadura rígida de outrora, o olhar desprende-se mais facilmente do guiador para procurar o horizonte. E que horizonte.

Nesta transição de estação, a luz de Braga parece ter ganho uma nova voltagem. É uma claridade baixa, oblíqua, que incendeia o granito e transforma o céu de final de tarde numa tela de uma revista de arte dos anos 70. Dentro de um carro, o pôr do sol é um cenário que passa por uma moldura; na mota, eu sou parte da pintura.

Este prolongamento solar ao fim do dia é a minha verdadeira terapia de recolhimento. Enquanto a cidade acelera no caos do regresso a casa, eu deslizo sob o meu manto negro, em silêncio interior, testemunhando a luz que resiste. O inverno pode ainda dar alguns passos de dança, mas eu já mudei de figurino.

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