Restos de luz na viseira

25 fevereiro 2026
O nosso reflexo, eu com uma sweatshirt vermelha na minha scooter Honda Vision 110 vermelha, visível através de uma grande superfície de vidro. A imagem apresenta um jogo de sobreposições e divide-se entre o mundo refletido (carros e edifícios) e a realidade exterior à direita (jardim e passeio). Em primeiro plano, uma forma curva vermelha e desfocada da carenagem da mota cria uma moldura inferior, acentuando a profundidade da cena urbana em Braga.

Há quem atravesse Braga e chegue ao fim do dia intacto.
Eu chego com restos de luz presos à viseira, com frases a bater no interior do capacete como insetos teimosos numa noite morna.

Durante muito tempo pensei que escrevia porque gostava de escrever.
Hoje desconfio que escrevo por outra razão: para que a intensidade não desapareça — para reter o que, de outro modo, se perderia.

Se deixasse de escrever, acho que desapareceria.

A cidade continuaria no mesmo sítio. As mesmas ruas, os mesmos semáforos, o mesmo empedrado irregular a lembrar-me que o corpo também conduz. Mas faltaria qualquer coisa invisível — essa camada fina que transforma deslocação em experiência.

Quando procuro o melhor enquadramento de uma rua, não estou apenas à procura de uma fotografia. Estou a tentar perceber onde a luz decide pousar. Onde o silêncio pesa mais. Onde a curva da estrada pede uma frase curta.

Não é sobre estética.
É sobre atenção.

A escrita começa antes de eu chegar a casa. Começa quando abrando ligeiramente sem ninguém atrás de mim. Quando reparo que uma varanda antiga segura a tarde com mais dignidade do que muitos discursos. Quando estaciono e fico mais um segundo do que o necessário.

É nesse segundo a mais que tudo acontece.

Há quem diga que narrar o que se vive retira espontaneidade. No meu caso, faz o contrário. Obriga-me a estar inteiro. A não atravessar o dia em modo automático. A não deixar que as horas se dissolvam como vapor no asfalto.

Escrever não vem depois da vida.
Modela-a.

Saber que posso transformar um instante numa crónica faz-me olhar com mais rigor. A cidade deixa de ser pano de fundo. Passa a ser matéria sensível. E eu deixo de ser apenas alguém em trânsito — passo a ser alguém em observação.

Talvez seja por isso que não preciso de comentários. Nem de aplauso. Nem de monetização. O retorno acontece antes de publicar. Acontece no momento em que percebo que o dia não se perdeu.

Há uma fotografia que às vezes acompanha estes textos. Só uma. Não para explicar. Para criar pausa. Para que o leitor respire antes de continuar. A imagem não conta a história — sustém-na.

Tal como a mota não é personagem; mas é mais do que instrumento: é o dispositivo que me coloca entre — entre o dentro e o fora, entre o movimento e a pausa, entre o reflexo e o real.

Escrevo como quem alimenta uma coluna de uma revista que deixou de existir, que se ausentou dos quiosques porque deixou de ter leitores. É um exercício de resistência contra o efémero. E quando já não houver quem me leia, continuarei a escrever para mim mesmo.

Sem este espaço, talvez continuasse a circular pelas mesmas ruas. Mas já não as atravessaria com a mesma densidade. Seriam apenas trajetos. Não matéria narrativa.

E isso, para mim, seria uma forma discreta de desaparecimento.

Escrever é o que impede que isso aconteça.