O músculo da abstração

12 abril 2026
Sobre o banco de uma scooter Honda Vision vermelha, destacam-se os elementos de uma pausa na viagem: à esquerda, uma mão segura o livro Des(a)fiando Contos, de José da Xã, com uma capa em tom salmão ilustrada com uma paisagem rural bucólica. Ao centro, um par de luvas de motociclista em pele preta repousa sobre o assento. À direita, um capacete integral azul e preto com viseira transparente completa a composição. Ao fundo, vislumbra-se um jardim com árvores e vegetação sob um céu nublado.

Sempre li a partir de redutos. A leitura, para mim, era um ritual que exigia a liturgia do quarto, o silêncio absoluto das paredes conhecidas ou, no limite da audácia, o isolamento da varanda. Fora desse perímetro de conforto, as palavras pareciam perder o fôlego, asfixiadas pelo ruído do mundo, pela luz errada ou pela conversa alheia que teimava em infiltrar-se entre as linhas.

Mas a vida, tal como a estrada, impõe as suas curvas. E o "culpado" desta vez tem nome: José da Xã.

Des(a)fiando Contos tornou-se a exceção que veio para ditar uma nova regra. Com as suas dimensões gentis, tão convidativas ao transporte, o livro deixou de ser um objeto de prateleira para passar a ser a "app" de entretenimento que instalei debaixo do banco da minha Honda Vision — sempre pronta a abrir. É o meu sistema operativo para as esperas e para as pausas itinerantes.

Tenho treinado o músculo da abstração. Se antes a luz me distraía, agora procuro o jazz de fundo para domar o caos. Começo a tolerar o murmúrio da cidade como se fosse apenas a banda sonora de fundo de uma viagem maior. Descobri que o poder de desaparecer do lugar onde estamos, para aterrar na geografia que o livro nos propõe, é um treino de musculatura invisível mais fácil do que eu antecipava.

Hoje, ao arrancar, senti o ar fresco a percorrer-me o corpo. Um lembrete sensorial de que os aguaceiros andam perto e de que sou parte integrante da paisagem que atravesso — este paralelo trepidante que é o ADN das ruas de Braga.

Ao chegar ao destino, não há pressa. Retiro as luvas e o capacete com uma lentidão quase ritualista, como se fizesse esperar o livro que me aguarda no compartimento da mota. Olho em redor, contemplo o horizonte e, num instante de magia editorial, percebo que já não estou ali.

Sempre tive um fascínio particular pela composição gráfica de livros e revistas; quando é bem feita, tem a força de nos projetar para onde ainda não estávamos. A capa deste livro é tão capaz que, mesmo antes de o abrir, já me sinto lá dentro.

Sigo caminho, agora por dentro das palavras, com a certeza de que a minha Honda não carrega apenas um motor, mas uma biblioteca de bolso pronta para desafiar qualquer rotina.

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