O músculo da abstração

Sempre li a partir de redutos. A leitura, para mim, era um ritual que exigia a liturgia do quarto, o silêncio absoluto das paredes conhecidas ou, no limite da audácia, o isolamento da varanda. Fora desse perímetro de conforto, as palavras pareciam perder o fôlego, asfixiadas pelo ruído do mundo, pela luz errada ou pela conversa alheia que teimava em infiltrar-se entre as linhas.
Mas a vida, tal como a estrada, impõe as suas curvas. E o "culpado" desta vez tem nome: José da Xã.
Des(a)fiando Contos tornou-se a exceção que veio para ditar uma nova regra. Com as suas dimensões gentis, tão convidativas ao transporte, o livro deixou de ser um objeto de prateleira para passar a ser a "app" de entretenimento que instalei debaixo do banco da minha Honda Vision — sempre pronta a abrir. É o meu sistema operativo para as esperas e para as pausas itinerantes.
Tenho treinado o músculo da abstração. Se antes a luz me distraía, agora procuro o jazz de fundo para domar o caos. Começo a tolerar o murmúrio da cidade como se fosse apenas a banda sonora de fundo de uma viagem maior. Descobri que o poder de desaparecer do lugar onde estamos, para aterrar na geografia que o livro nos propõe, é um treino de musculatura invisível mais fácil do que eu antecipava.
Hoje, ao arrancar, senti o ar fresco a percorrer-me o corpo. Um lembrete sensorial de que os aguaceiros andam perto e de que sou parte integrante da paisagem que atravesso — este paralelo trepidante que é o ADN das ruas de Braga.
Ao chegar ao destino, não há pressa. Retiro as luvas e o capacete com uma lentidão quase ritualista, como se fizesse esperar o livro que me aguarda no compartimento da mota. Olho em redor, contemplo o horizonte e, num instante de magia editorial, percebo que já não estou ali.
Sempre tive um fascínio particular pela composição gráfica de livros e revistas; quando é bem feita, tem a força de nos projetar para onde ainda não estávamos. A capa deste livro é tão capaz que, mesmo antes de o abrir, já me sinto lá dentro.
Sigo caminho, agora por dentro das palavras, com a certeza de que a minha Honda não carrega apenas um motor, mas uma biblioteca de bolso pronta para desafiar qualquer rotina.