Não tem de estar sol
O céu de Braga hoje foi um lençol de cetim cinzento, esticado com uma perfeição quase intimidante. Uma beleza relativa — daquelas que as revistas de meados do século passado fixavam em película de grão grosso — densa, suspensa, prometendo uma chuva que teima em não cair. O asfalto, esse, parece à espera. Como se também ele escutasse.
Estou já em cima da Vision, o motor num sussurro certo, as luvas ajustadas com o cuidado de um gesto repetido muitas vezes. Há uma liturgia nisto: o capacete que desce, o mundo que se afasta um pouco, o caminho que se antecipa como um território só meu.
Mas o senhor Artur, do outro lado da rua, interrompe esse recolhimento. Desde que a casa dele ficou maior — ou mais vazia — as palavras ganharam-lhe urgência. Já não cabem dentro.
“Tem de ser!”, atira, com um aceno largo que atravessa a distância. “Vou visitar a minha velhinha.”
Aponto, quase por instinto, ao céu pesado sobre o Bom Jesus, insinuando que amanhã será mais claro, mais seco, talvez mais fácil. Pergunto sem perguntar: porquê hoje?
Ele não responde. Ou melhor, responde com o corpo — um passo em frente, o início do seu caminhar vagaroso, decidido. E isso basta.
É nesse intervalo — entre o motor que vibra e o passo que se afasta — que percebo a simetria silenciosa. Eu, que não abdico da estrada aberta mesmo quando o carro promete abrigo; ele, que não adia o caminho até ao lugar onde a memória repousa, mesmo com o céu por cumprir.
O que nos move não é a lógica do conforto. É qualquer coisa mais funda, mais discreta. Uma espécie de teimosia íntima que insiste em dar textura ao dia.
Para ele, é o ar húmido no rosto, o percurso até onde ainda conversa com quem já não responde. Para mim, é a brisa que encontra caminho pelas frinchas da viseira, o desenho das curvas, o corpo inclinado como quem escreve no espaço. Pequenos gestos que nos resgatam da rotina lisa, sem relevo.
A nossa liberdade — se é que a palavra não é grande demais — está nestas escolhas mínimas. Sair. Ir. Não esperar pelo dia perfeito.
Arranco.
O céu acompanha, silencioso, talvez curioso. No espelho, o senhor Artur torna-se uma figura mais pequena, mas não menos nítida: avança com a mesma determinação com que eu desço a rua. Dois trajetos, duas velocidades, a mesma matéria invisível a unir-nos — o ar, a memória, a recusa em ficar.
Não tem de estar sol.
Há dias em que a luz não vem de cima, mas de dentro do gesto. De uma visita que não se adia. De um regresso à fábrica que se faz contra o conforto fácil. De um aceno lançado de um lado da rua para o outro, como quem reconhece no outro a mesma necessidade de continuar.
E a chuva, suspensa, talvez por respeito, limita-se a observar.