A artéria que envelheceu um século num ano

Dizem que o tempo é relativo, mas na Avenida do Covedêlo com a Rua Sra. da Graça, ele corre a uma velocidade assustadora. Há apenas doze meses, este asfalto era uma promessa de modernidade, uma linha de futuro. Um tapete negro, liso, que ligava Celeirós à Aveleda, na periferia sul de Braga. Hoje, ao olhar para o chão junto ao parque industrial, a sensação é a de quem observa as ruínas de uma civilização antiga que tentou, sem sucesso, domesticar o subsolo.
Como é que uma obra com garantia de execução se transforma, em tão pouco tempo, numa colcha de retalhos de tão má qualidade?
A Vision, com o seu comportamento ágil, foi desenhada para a cidade, para serpentear no trânsito. Mas aqui, o serpentear é de sobrevivência.
O chão por onde passamos não é manutenção; é um testemunho da arquitetura do desenrasque. O que vemos na imagem não é uma estrada. É uma coleção de cicatrizes mal curadas. Onde devia haver continuidade asfáltica, há agora uma guerra de materiais. O uso indevido de cimento para selar o que o betume devia proteger é o primeiro sinal de capitulação técnica. Como quem tenta tapar um buraco num barco com pastilha elástica, o cimento cedeu, fendeu e abateu, criando desníveis que acumulam detritos e testam a resistência de qualquer suspensão.
Mas o pior não são os abatimentos. São as "crateras invertidas". Aqueles remendos de alcatrão que não foram nivelados, mas sim despejados, criando autênticas lombas irregulares onde devia haver fluidez. Para quem circula em duas rodas, como a minha scooter que descansa ali ao fundo, estas sobreelevações são um pesadelo camuflado. O que devia ser uma deslocação fluida transforma-se num slalom perigoso, onde cada metro quadrado é um obstáculo imprevisto que ameaça a estabilidade e a segurança, retirando confiança ao condutor e submetendo a ciclística da mota a um esforço desnecessário.
É quase irónico ver, ao fundo, a placa de velocidade "30". Nesta artéria, essa placa não é uma velocidade recomendada; é um aviso de sobrevivência. Tentar ir mais depressa do que isso neste terreno minado é pedir para desmontar o veículo ou, pior, para testar a aderência do capacete no asfalto.
Artéria renovada? Talvez no papel. Na realidade, é hoje um monumento ao desleixo urbano. Um desrespeito pelo erário público e, acima de tudo, pela integridade física de quem nela circula. Uma avenida que, aos olhos de quem a usa todos os dias, já envelheceu cem anos em apenas um.
Nota de Rodapé: Entretanto, a resposta chegou-me via correio eletrónico. O Presidente da Junta partilha do desagrado e confessa que a situação se arrasta há um ano, perdida algures nos corredores das "entidades competentes". Ficamos assim: com a razão do nosso lado, mas com o cimento debaixo dos pneus. No teatro da burocracia, o asfalto é o último a entrar em cena.