Cúmplice de Natal

19 dezembro 2025
Plano aproximado da frente de uma Honda Vision vermelha, protegida sob o beiral de uma varanda em Braga, com o céu nublado de dezembro e edifícios residenciais ao fundo, após uma missão de Natal

Hoje o sol apareceu em Braga com uma timidez luminosa, daquelas que parecem pedir desculpa por saberem que a chuva está ao virar da esquina. Antes que o céu se fechasse sobre o beiral da varanda, a Vision saiu à rua para sentir o asfalto seco e cumprir uma missão dupla de última hora.

O pretexto foi um café de Natal. A amiga da mota preta — aquela que partilha o mesmo chão na entrada de casa e os biscates com a minha mulher — convidou-nos para um encontro de despedida antes das festas. Elas seguiram o seu ritmo, e eu fui lá ter de mota, estacionando a minha Vision vermelha perto da sua veterana preta, num reencontro que já se tornou um hábito silencioso da nossa rotina.

Mas a verdadeira razão da minha pressa era outra. Havia uma encomenda de Natal à minha espera na papelaria das proximidades, um segredo que não podia entrar em casa à vista de todos. É aqui que a Vision revela a sua faceta de cúmplice: entre o banco e as carenagens, ela oferece esconderijos que nenhum porta-bagagens de carro consegue igualar com tanta discrição.

Levantei o volume, escondi-o com o jeito de quem guarda um tesouro e regressei a casa. Agora, enquanto olho para o céu que já promete chuva, sinto uma satisfação pacífica. A Vision já descansa no seu lugar de honra, protegida pela varanda e pela lona justa, guardando não só o motor, mas também a surpresa que o dia 25 revelará.

Andar de mota em dezembro é isto: aproveitar as frestas de sol para resolver a vida e perceber que, às vezes, a liberdade também serve para transportar segredos.