O despertar dos sensores

O sinal sonoro que dita o fim do expediente carrega consigo uma ironia pacífica: é o som que encerra o dever e inaugura uma realidade realmente livre. Depois de horas a fio em que o trabalho duro nos caleja os sentidos até quase os anestesiar, a transição para a liberdade exige um tempo próprio de desaceleração. É um processo lento. De capacete já colocado e uma das luvas calçada, cumpro o último ritual mecânico: a pele do polegar direito toca no sensor do relógio de ponto, libertando a mão que falta para calçar a outra luva.
Dou corda à Vision e, sobre o banco, começo finalmente a acordar.
O asfalto inicial, com as suas pequenas imperfeições, devolve-me o tato. Contorno a rotunda na periferia da cidade com a leveza de quem se deixa levar num carrossel de infância e cruzo a linha férrea com aquele desejo antigo, quase suspenso, de ver um comboio a passar. Logo adiante, o pisca-pisca anuncia a mudança de ritmo. Desço uma rua estreita, pavimentada num granito velho e gasto pelo tempo, polido por décadas de invernos e chuvas miúdas. Há uma memória palpável naquelas pedras, um eco que ressoa nos pneus da scooter e se estende aos muros rústicos que delimitam o caminho.
Quando paro, a inclinação da mota denuncia-me. Deixá-la descansar sobre o descanso lateral, em vez do central, é o veredicto silencioso do meu próprio cansaço; o corpo já não quer suportar peso nenhum. Mas ao afastar-me, o enquadramento obriga-me a estacar.
Mesmo o ruído metálico e distante da roçadora com que a minha mulher deita mãos ao jardim não consegue quebrar a solenidade do instante. A luz, filtrada por nuvens pesadas que ameaçam trovoada para os dias seguintes, rasga o céu e incide exatamente ali, naquele corredor de pedra que parece conduzir a um tempo desativado — talvez um antigo convento ou mosteiro, denunciado por uma estrutura que outrora segurou dois sinos.
Percebo, então, que os meus sensores acordaram para a vida. Retomo a marcha a pé em direção à minha mulher. Sei que as mensagens subtis que me envia, localizando-se no espaço, são apenas a sua forma de me querer por perto, de reclamar a minha presença. Mesmo sabendo que eu apareço ali assim: meio distraído com a geometria das coisas, detido nos ângulos, a decifrar os cheiros e a composição da paisagem.
Com o sol cada vez mais baixo, chega a hora do recolhimento. Aponto a proa da Vision para casa. E enquanto o som redondo do motor ecoa contra aquelas paredes de pedra rústica, imagino as carroças e os cavalos que, séculos antes de mim, pisaram exatamente o mesmo chão.