A lentidão necessária

Ainda meio submerso no torpor da manhã, ouvi a voz da minha mulher a atravessar o nevoeiro do despertar: era preciso transportar a tijoleira para a nossa casa de campo. Ela e o meu enteado seguiriam na carrinha de dois lugares; eu iria de mota. Levei a mão ao braço dela, num gesto de verificação, para confirmar se aquilo não era apenas uma alucinação hipnopômpica. Mas não — era mesmo um chamamento para a estrada.
A ideia de aproveitar um dia nublado para voltar à Nacional 201 arrancou-me do ninho com uma prontidão que só a promessa de liberdade consegue convocar. Em minutos estava pronto, a Vision já alinhada com a Berlingo que levaria o peso do material, enquanto eu levaria o peso leve da viagem.
Gilles Lipovetsky, na sua última entrevista à revista Ler, lembra-nos que a felicidade duradoura exige tempo — e que o tempo, para existir, precisa de ritmo lento. A sociedade, dizia ele, afoga-se na imediatez das pantalhas, incapaz de sustentar a atenção que uma conversa, um livro ou uma paisagem exigem. Martim Vasques da Cunha acrescentaria que precisamos de encontrar “alguma ordem que dê sentido a esta marmita que somos obrigados a comer aqui em baixo”. E, talvez, seja isso que procuro quando escrevo estas viagens: um pequeno ritual de resistência, uma forma de devolver densidade ao que, de outro modo, se perderia na pressa. O vento, o guiador e a cadência da minha Honda Vision.
A viagem, mais do que o transporte de material, foi um exercício de sociabilidade. O pequeno-almoço com a presença de vizinhos e conhecidos na padaria foi o aquecimento, o óleo necessário para as engrenagens da alma. A poucos metros dali, a bomba de gasolina, onde atestei o depósito da Vision — que, na sua modéstia, engole menos do que cinco litros para nos oferecer uma enorme liberdade — e com a fidelidade de sempre verificámos a Berlingo. Depois, a estrada. O calor parado dissolveu-se no primeiro sopro fresco do andamento. A variante de Braga sacudiu a poeira dos dias anteriores, mas não apagou as marcas secas de chuva que a Vision ainda carregava como cicatrizes recentes.
Surpreendeu-me o movimento matinal num feriado de Primeiro de Maio: motas de grandes cilindradas, amortecedores imponentes, o desfile dos cavalos de ferro. Nenhuma scooter. A minha pequena 109 cc parecia uma nota dissonante naquele coro de cilindradas altas — e, no entanto, com a sua “cilindrada imperfeita”, lembrava-me que a dignidade de um trajeto não se mede pela potência, mas pela presença.
O Cávado apareceu como um espelho de céu, as margens verdes a respirarem devagar. Depois, a estrada estreitou-se e pediu silêncio. O aroma a terra fresca, levantado pelo trator que lavrava um campo próximo, entrou-me pelo capacete adentro — um perfume impossível para quem viaja dentro de uma redoma de aço. Em duas rodas, fazemos parte da paisagem; não a observamos apenas, pertencemos-lhe.

A Berlingo piscou para encostar. Pensei no seu habitual aquecimento crónico em maiores aceleramentos, mas era apenas um cafézinho com vista para a N201. A Vision ficou atrás da carrinha, como sentinela discreta. Na pastelaria da dona Arminda, as vozes femininas teciam o quotidiano das terras onde a invisibilidade, ao contrário da cidade, não tem lugar.
De volta à estrada, ultrapassei alguns carros para recuperar o meu lugar atrás da carrinha. Marrancos recebeu-nos com as suas fachadas de pedra, os beirais, os varandins de ferro forjado. Em Queijada, as curvas abriram o horizonte para montanhas que pareciam respirar.
Em Ponte de Lima, uma mancha laranja aproximou-se pelo espelho — mota e condutor fundidos na mesma cor. Depois desapareceram, substituídos por outras duas máquinas de rodas altas. A Vision seguia humilde, mas firme, como quem sabe que a liberdade não se mede em centímetros cúbicos, integrada numa pequena caravana, num desfile de vontades simples.
A estrada subiu até Rubiães, onde começámos a partilhar o asfalto com peregrinos que, passo a passo, tomam rumo a Santiago. Atravessámos o Coura pela Ponte Nova do Crasto, quase escondida pelo arvoredo, e chegámos finalmente à casa de campo. O descarregar da tijoleira foi rápido, mas suficiente para lembrar que as obras avançam ao ritmo possível — o ritmo de quem não tem orçamento para milagres.
O almoço fez-se no restaurante habitual. A Vision subiu a pequena rampa da esplanada e ficou a descansar, até ser acompanhada por uma imponente Honda Gold Wing Tour laranja. Um contraste quase cómico, mas bonito.
O regresso a Braga fez-se com a mesma serenidade. A nebulosidade oferecia sombra, a brisa animava as rodas, o vento anunciava chuva futura. Uma antiga casa de cantoneiros da JAE surgiu à direita, imóvel como sempre, a vigiar a estrada. Passei por ela com a familiaridade de quem reconhece um marco antigo que guarda o caminho sem pedir atenção. A Vision chegou a casa com 122 quilómetros feitos, as marcas secas da chuva ainda presentes, mas com a promessa de que, enquanto houver uma Estrada Nacional para percorrer e uma casa para cuidar, o prazer de andar, parar e olhar continuará a ser a minha forma de habitar o mundo.
Porque a felicidade, como dizia Lipovetsky, exige tempo. E a estrada — sobretudo a estrada lenta — é uma das formas mais antigas de o recuperar.