O peso da marcha atrás
Por estes dias estacionei a mota em frente a uma livraria no centro de Braga. A ideia de entrar numa livraria é, em princípio, procurar livros. Mas eu nunca consegui domesticar este gosto antigo pelo grafismo, pelas revistas, por essa superfície impressa que parece sempre guardar um segredo. Talvez devesse procurar uma revistaria, mas não conheço nenhuma. Volto então à livraria, como quem regressa a um hábito que não se questiona.
Procuro uma secção de revistas, mas percebo rapidamente que isso existe apenas na minha cabeça, como certas ruas que julgamos lembrar e afinal nunca percorremos. Já com dois livros na mão, prestes a virar-me para sair, vejo um empilhamento improvável: uma única revista repetida vinte vezes, como se alguém tivesse decidido que bastava aquela para representar todas as outras. Chama-se Ler. Uma ordem, quase um imperativo moral.
A capa, bordô e mostarda, ilustrada por Pedro Vieira, prende-me antes de qualquer título. Peço um exemplar sem hesitar. Só já fora da livraria, pousada no banco da Vision, reparo que é uma edição de outono/inverno. E penso, sem grande rigor científico, se esta viagem no tempo — regressar ao que se escreveu para o frio quando já se respira a estação seguinte — não terá também ela benefícios para a saúde. Como andar para trás: um pequeno desvio que obriga o corpo e a cabeça a reorganizarem-se.
Guardo a revista com cuidado no compartimento, para que não vinque, e sigo viagem, o arranque breve a devolver-me ao trânsito. Nas revistas, como nos livros, deixo a capa a maturar durante dias antes de avançar. Não sei exatamente que peso trouxe eu até casa, se o da revista ou o da expectativa. Ela espera por mim há duas semanas, enquanto dou vazão ao meu buffer literário. Mas já deu para sentir que o papel cheira bem. Uma revista é como um bom vinho: não se cospe fora.
Em breve saberei que peso carregou a minha scooter desde o centro da cidade até à varanda sobre a rua empedrada. Talvez, quando finalmente a abrir, descubra que ler fora de época é apenas outra forma de caminhar ao contrário — um exercício discreto de reabilitação da atenção, um modo de regressar ao essencial pela via menos óbvia.