Cartografia íntima de um ano móvel

A memória guarda com precisão o cheiro a borracha fresca e a luz difusa daquele final de manhã, num sábado de março. Olho para a fotografia, tirada há um ano – cujo aniversário se cumpriu no domingo passado – e vejo mais do que uma carenagem vermelha a estrear o descanso lateral; vejo uma fronteira nítida — quase geométrica — entre o homem que eu era e aquele em que me fui tornando.
Naquele tempo, a minha relação com a pequena máquina media-se pela exatidão dos mapas e pela obsessão dos detalhes técnicos. Eu falava de navios vindos de Hanói, de burocracias portuárias, de fichas USB. Coisas sólidas. Coisas de quem ainda não tinha experimentado a leveza de flutuar sobre o asfalto.
Um ano depois, percebo que não adquiri apenas um objeto de deslocação. Adquiri, sem saber, uma nova coreografia para os dias.
Eu, que sempre fiz do recolhimento doméstico uma espécie de arte silenciosa, vi as paredes de casa recuarem até aos limites da cidade. A chuva e o nevoeiro, antes pretextos para a imobilidade, tornaram-se apenas variações de textura no percurso. Braga deixou de ser um circuito de rotinas para se transformar num labirinto de pequenas epifanias.
O ângulo inesperado de um candeeiro antigo. O aroma a café moído numa rua estreita onde os carros não ousam entrar. A quietude suspensa de um jardim suburbano. Lugares que sempre existiram, mas que exigiam a cadência certa — duas rodas e algum abandono — para se revelarem.
Tornei-me um observador mais paciente, talvez um pouco mais boémio na forma como me permito na dilatação do tempo, a olhar para o mundo. Há uma elegância discreta em deixarmo-nos contaminar pela cidade sem a urgência de chegar.
A escrita, inevitavelmente, acompanhou essa curva. Deixou de ser um relatório sobre a máquina para se tornar um testemunho da experiência. Já não se fixa no destino. Demora-se, agora, naquilo que sempre esteve no meio: a poesia do caminho.