O inverno infinito e o enigma da Vision vermelha

Tenho acordado com o sol a bater-me no rosto. Braga, na sua bonomia primaveril, já nos oferece dias com temperaturas acima dos 20 graus. A sensação tátil de vestir roupa mais leve, em vez do peso do inverno, é uma pequena vitória diária, uma confirmação de que os dias longos e quentes chegaram para ficar. A minha Vision, que me acompanha fielmente durante todo o ano — enfrentando a chuva persistente do Minho e as manhãs gélidas de janeiro sem nunca reclamar —, parece agora brilhar de outra forma sob este calor, quase invisível no trânsito, apenas mais uma pincelada de cor na paleta da cidade.
Mas, como se o mundo quisesse travar o nosso entusiasmo, recebi uma fotografia de Bulle, na Suíça. Foi o meu enteado que enviou, tirada da janela esta manhã. E a imagem é de um inverno infinito em plena primavera.
Os telhados pálidos de Bulle, incluindo aquele rosa-pastel que imagino acolhedor no verão, estavam cobertos de branco. Uma árvore conífera solitária e persistente ergue-se no meio de um jardim nevado. E no horizonte, as montanhas brancas e frias, um lembrete implacável de que, noutros lugares, a neve ainda manda.
"Quase ninguém anda de mota aqui, é gelo por todo o lado," comentou ele, com o pragmatismo de quem convive com o frio.
"Quase… Então alguém anda, os verdadeiros!" respondi, mais por instinto do que por razão técnica.
"É muito frio, as estradas ficam cheias de gelo," contrapôs ele, com a segurança de quem prefere a segurança de quatro rodas nestas condições.
E foi nesse momento que a imagem da Vision me veio à cabeça. Não a minha, que aguardava pacientemente a minha vez à entrada de casa, mas uma outra geografia do frio, na Roménia, onde a neve não é apenas uma fotografia bonita, mas uma barreira técnica.
Pensei no Arthur Voicu e no seu projeto Ideal Bike Adventures. Para ele, o inverno não é um impedimento, mas um desafio. Ele não se limita a observar a neve da janela; ele prepara-se para ela. E qual é a máquina que ele escolhe para enfrentar o pico do inverno romeno? Uma Honda Vision 110, igual à minha, pintada de um vermelho vibrante, quase como uma provocação à paisagem branca.
Mas o segredo não está na cor, está na técnica. O Arthur equipa a pequena scooter urbana com pneus de neve, muitas vezes os Anlas Winter Grip 2, transformando um veículo de bonomia citadina num pequeno trator de neve. Há algo de profundamente poético e minimalista nesta escolha. Enquanto as grandes motas de aventura ficam na garagem, a pequena Vision, um veículo de 110cc, fura o gelo, quase sem fazer barulho, cumprindo o seu propósito de liberdade. É a elegância do minimalismo.
Regresso ao meu momento em Braga. O sol continua a bater.
Esta reflexão, impulsionada por uma fotografia de Bulle e pela imagem de uma Vision na Roménia, é um lembrete de que o inverno lá fora é apenas uma estação. O verdadeiro "enteado" (o verdadeiro entusiasta) não é aquele que se assusta com o gelo, mas aquele que, como o Arthur, sabe que a liberdade é uma questão de preparação e de atitude.
E, enquanto a minha Vision me leva pelas ruas de Braga, sei que a primavera, tal como o inverno, começa cá dentro, na nossa vontade de nunca parar de explorar, independentemente da temperatura.