Manual autárquico: como usar um poste morto

O ritual é sempre o mesmo. A viagem curta, o trajeto que conheço de cor, e o momento em que a scooter encosta ao rebordo do passeio, em frente à casa da minha sogra. É um instante de transição — o motor cala-se e o mundo urbano, na sua coreografia discreta, revela-se.
Mas ultimamente há um detalhe que insiste em ficar.
O culpado está ali, bem à frente: um poste de iluminação pública, firme, mas cego. A luminária ardeu há muito tempo. Ficou o esqueleto metálico, sem cabeça, e com a cablagem exposta – como uma ferida aberta. A fita que outrora assinalava o perigo — vibrante, urgente — tornou-se um trapo desbotado, até desaparecer por completo. Um lento apagar de responsabilidade.
É a prova visível de um processo que começou com uma exposição à Câmara Municipal de Braga, lá por maio de 2024, e que desde então repousa — confortável — nos arquivos da burocracia.
Mas há uma ironia difícil de ignorar.
Nas últimas eleições autárquicas, este mesmo poste cego — incapaz de iluminar o asfalto — foi promovido a suporte de campanha. Sobre o metal abandonado colaram promessas de futuros risonhos e slogans vazios de um partido que, curiosamente, continuou no poder. Um gesto simples, quase banal, mas carregado de um cinismo involuntário: usar o que não se cuida para prometer o que não se cumpre.
O brio falhou. E a fiscalização, essa, parece sofrer da mesma cegueira que o poste, circulando numa indiferença burocrática enquanto o abandono se perpetua.
Fica a sensação de que agora tudo espera pelo empurrão do cidadão comum. Como as operadoras que nos pedem para diagnosticar avarias do outro lado da linha. Pagamos serviços, impostos, confiança — e ainda assim somos convocados a fazer o primeiro movimento.
Cansado de esperar pela luz que não vinha, decidi agir. Num gesto simples, acedi ao site da E-Redes e reportei a avaria. Pouco depois, um SMS: situação registada. Um pequeno ato de cidadania ativa — talvez insignificante. Talvez suficiente para quebrar a inércia.
E enquanto espero, fico ali.
Na fotografia, a minha Honda Vision vermelha não é apenas transporte. É contraponto. Com os farois acesos no crepúsculo, assume a função que o poste abandonou. Onde o sistema falha, ela ilumina. Sem discurso, sem promessa.
Uma pequena revolução sobre duas rodas.
A luz que falta ao poste não vem de cima. Vem de nós — dos que não aceitam a escuridão como estado permanente.