Manual autárquico: como usar um poste morto

31 março 2026
Scooter Honda Vision vermelha estacionada num passeio de calçada ao entardecer, com os faróis acesos. À direita, um poste de iluminação pública sem luminária. Em fundo, lojas com letreiros iluminados sob um céu em tons suaves de azul e rosa.

O ritual é sempre o mesmo. A viagem curta, o trajeto que conheço de cor, e o momento em que a scooter encosta ao rebordo do passeio, em frente à casa da minha sogra. É um instante de transição — o motor cala-se e o mundo urbano, na sua coreografia discreta, revela-se.

Mas ultimamente há um detalhe que insiste em ficar.

O culpado está ali, bem à frente: um poste de iluminação pública, firme, mas cego. A luminária ardeu há muito tempo. Ficou o esqueleto metálico, sem cabeça, e com a cablagem exposta – como uma ferida aberta. A fita que outrora assinalava o perigo — vibrante, urgente — tornou-se um trapo desbotado, até desaparecer por completo. Um lento apagar de responsabilidade.

É a prova visível de um processo que começou com uma exposição à Câmara Municipal de Braga, lá por maio de 2024, e que desde então repousa — confortável — nos arquivos da burocracia.

Mas há uma ironia difícil de ignorar.

Nas últimas eleições autárquicas, este mesmo poste cego — incapaz de iluminar o asfalto — foi promovido a suporte de campanha. Sobre o metal abandonado colaram promessas de futuros risonhos e slogans vazios de um partido que, curiosamente, continuou no poder. Um gesto simples, quase banal, mas carregado de um cinismo involuntário: usar o que não se cuida para prometer o que não se cumpre.

O brio falhou. E a fiscalização, essa, parece sofrer da mesma cegueira que o poste, circulando numa indiferença burocrática enquanto o abandono se perpetua.

Fica a sensação de que agora tudo espera pelo empurrão do cidadão comum. Como as operadoras que nos pedem para diagnosticar avarias do outro lado da linha. Pagamos serviços, impostos, confiança — e ainda assim somos convocados a fazer o primeiro movimento.

Cansado de esperar pela luz que não vinha, decidi agir. Num gesto simples, acedi ao site da E-Redes e reportei a avaria. Pouco depois, um SMS: situação registada. Um pequeno ato de cidadania ativa — talvez insignificante. Talvez suficiente para quebrar a inércia.

E enquanto espero, fico ali.

Na fotografia, a minha Honda Vision vermelha não é apenas transporte. É contraponto. Com os farois acesos no crepúsculo, assume a função que o poste abandonou. Onde o sistema falha, ela ilumina. Sem discurso, sem promessa.

Uma pequena revolução sobre duas rodas.

A luz que falta ao poste não vem de cima. Vem de nós — dos que não aceitam a escuridão como estado permanente.

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