O murmúrio das águas e o doce do mel

O asfalto, ferido pelas chuvadas de inverno, exige uma dança de precisão. Entre fendas e novos buracos que os impostos parecem ignorar, a minha Honda desliza em direção ao extremo este, onde Guimarães toca Braga e o tempo parece correr ao ritmo de um moinho antigo.
Em Entre as Águas, o silêncio não é vazio; é preenchido pelo som constante do Monte da Falperra que escorre por baixo dos pés, sob o soalho da casa de um velho amigo. Ali, onde o pai foi moleiro, a conversa flui com a mesma força da água. Fugimos das primeiras gotas de chuva para o abrigo da garagem, mas o diálogo — esse fio invisível que nos liga aos tempos em que trabalhávamos juntos — não conhece pausas.
Saltamos de recordações profissionais para a pureza da infância, enquanto na cozinha o cenário se compõe: o calor do fogão a lenha, o ritmo desenfreado da batedeira e o conforto de um cálice de vinho do Porto. Naquele casulo de hospitalidade, onde o mel é o pretexto e a amizade é o sustento, senti a falta de quem mais gosto; há momentos que merecem ser partilhados em duo.
Parti com a scooter mais doce, carregada de frascos de mel e de uma alma aquecida. Ao deixar para trás o som das águas e subir Balazar, percebi que estas pequenas fugas urbanas são, na verdade, viagens de regresso ao que realmente importa — como a água que encontra sempre o seu curso.