O murmúrio das águas e o doce do mel

31 janeiro 2026
Fotografia em plano lateral de uma scooter Honda Vision 110 vermelha estacionada numa estrada húmida, tendo como fundo uma ruína de pedra rústica coberta de musgo sob um céu nublado.

O asfalto, ferido pelas chuvadas de inverno, exige uma dança de precisão. Entre fendas e novos buracos que os impostos parecem ignorar, a minha Honda desliza em direção ao extremo este, onde Guimarães toca Braga e o tempo parece correr ao ritmo de um moinho antigo.

Em Entre as Águas, o silêncio não é vazio; é preenchido pelo som constante do Monte da Falperra que escorre por baixo dos pés, sob o soalho da casa de um velho amigo. Ali, onde o pai foi moleiro, a conversa flui com a mesma força da água. Fugimos das primeiras gotas de chuva para o abrigo da garagem, mas o diálogo — esse fio invisível que nos liga aos tempos em que trabalhávamos juntos — não conhece pausas.

Saltamos de recordações profissionais para a pureza da infância, enquanto na cozinha o cenário se compõe: o calor do fogão a lenha, o ritmo desenfreado da batedeira e o conforto de um cálice de vinho do Porto. Naquele casulo de hospitalidade, onde o mel é o pretexto e a amizade é o sustento, senti a falta de quem mais gosto; há momentos que merecem ser partilhados em duo.

Parti com a scooter mais doce, carregada de frascos de mel e de uma alma aquecida. Ao deixar para trás o som das águas e subir Balazar, percebi que estas pequenas fugas urbanas são, na verdade, viagens de regresso ao que realmente importa — como a água que encontra sempre o seu curso.