O efeito costas quentes

27 janeiro 2026
Fotografia em plano aberto de uma Honda Vision vermelha estacionada num largo de paralelo molhado em frente à secular Capela do Senhor dos Passos, em Cabreiros – Braga. A fachada branca da capela e a sua torre sineira de pedra destacam-se sob um céu de inverno carregado de nuvens cinzentas ao entardecer. À esquerda, um cruzeiro de pedra alto completa a composição monumental e melancólica do cenário rural.

O céu de Braga apresentava-se incerto, num cinza claro e harmonioso que escondia o sol, mas não a promessa de neve nas proximidades. O pretexto para tirar a Vision de casa surgiu num telefonema a meio da tarde: um lanche, um pouco de água e a vontade de encontrar a minha mulher no seu espaço de trabalho, no limite oeste do concelho, onde o rural começa a desenhar-se.

Vesti o fato de PVC como quem enverga um traje espacial. Balaclava, capacete, luvas. Estava pronto para a minha pequena missão lunar.

O destino era Cabreiros. No horizonte, a estrada refletia a luz moribunda do dia, um espelho molhado que exigia respeito. Em Sequeira, o motor da Vision cantava com uma satisfação contagiante; já não era a rotina do asfalto diário, era uma exploração. Há algo de profundamente libertador em viajar em direção a quem amamos, sem o tique-taque do relógio a ditar o ritmo.

O encanto sofreu um solavanco na Avenida de Labriosque. O piso, devastado por crateras, é um monumento ao desleixo, "justificado" por placas que parecem esperar que os buracos se curem por vontade própria. À minha frente, um Honda de quatro rodas desistiu do martírio e desviou-se. Eu segui, bailando entre as imperfeições, até ser recebido em Cabreiros pelas lombas de boas-vindas.

Fiz uma pausa na Capela do Senhor dos Passos. Não pela religião, mas pela espiritualidade que emana daquelas pedras com quatro séculos, preservadas com uma dignidade que o asfalto desconhece. Ali, cruzei-me com uma criança de capacete, desafiando o frio na sua bicicleta. Sorri. Éramos dois conspiradores contra o clima, celebrando a liberdade em duas rodas sobre o paralelo.

Contornei a Quinta da Eirinha, onde o silêncio das videiras era ferido pelo clamor dos cães de guarda, e cheguei ao destino. A visita foi breve, as palavras poucas — ela estava ocupada. Mas a substância de um encontro não reside apenas no que se diz. A presença dela alimenta-me; é uma forma de calor que não se explica, sente-se. É o que chamo de "efeito costas quentes": aquele conforto terapêutico de saber que estamos juntos, mesmo no silêncio, mesmo no frio.

O regresso fez-se sob nuvens densas e o cair da noite. O frio apertava, mas a alegria era a mesma daquela criança na bicicleta. Os pneus da Vision morderam o alcatrão molhado com uma confiança que me continua a surpreender, mantendo a disciplina necessária para evitar as armadilhas do gelo ou do óleo.

Estacionei a mota ainda a cantar de contentamento. Meia hora depois, o "Hello!" dela ao entrar em casa selou o dia. A felicidade, tal como o caminho, é melhor quando é partilhada.