O azul-petróleo na luz que regressa

O primeiro arranque de janeiro é sempre o mais pesado. Não é apenas o óleo da Vision que parece mais denso sob o frio cortante de Braga; é o próprio corpo que, vindo do casulo das férias, estranha o abraço gélido da manhã. Aos zero graus, o regresso ao trabalho na fábrica sente-se na pele como um embate de crueza. No primeiro dia, cada quilómetro é uma geometria de sobrevivência. No segundo, porém, o organismo — essa máquina biológica tão resiliente quanto a engenharia japonesa — recorda-se do seu ofício.
Há uma habituação silenciosa, uma espécie de couraça invisível que nos permite ignorar o desconforto. Talvez com a idade o fogo interior perca o seu estatismo e nos obrigue a procurar o conforto em camadas de lã e tecidos técnicos, mas, por agora, a resistência ainda é uma forma de diálogo com a estrada.
Janeiro guarda, no entanto, um segredo debaixo do capacete: o esticão da luz.

Ao sair do turno, já não encontro o obscurantismo que nos empurra para o recolhimento. No horizonte, resiste um crepúsculo de azul-petróleo que teima em não se apagar. Esse prolongamento solar é uma injeção de vida; é tempo que roubamos à escuridão para, simplesmente, sermos, sem pressa.
Às vezes, enquanto a Vision desliza entre o trânsito, pergunto-me se esta liberdade em duas rodas não é a minha verdadeira indústria criativa. Entre o rigor das máquinas na fábrica e a fluidez das curvas no asfalto, é na mota que encontro a poesia que as mãos, por vezes, não conseguem fabricar. O trabalho pode ser de metal, mas o caminho... o caminho é de pura luz.