Anatomia de uma ausência: Lisboa sem a Vision

Lisboa tinha um azul que não aceitava filtros. É um azul de revista antiga, daquelas que se folheiam com vagar num café ou quiosque de bairro, onde o tempo é medido pelo bater da colher na chávena e não pelos segundos do semáforo. Encontrei-me aqui, parado no coração do Chiado, com as mãos nos bolsos e uma estranha sensação de nudez. Falta-me o capacete debaixo do braço.
Olho para os edifícios de um amarelo torrado pelo sol de inverno e dou por mim a fazer um exercício de memória muscular. Na Praça Luís de Camões, os meus olhos não procuram a estátua do poeta, mas sim o ângulo morto da calçada onde a minha Honda Vision se encaixaria com a sua elegância discreta. Sem ela, a cidade ganha uma escala diferente: as subidas parecem mais íngremes e a liberdade, outrora imediata ao rodar do punho, torna-se agora uma sucessão de passos lentos.
Há uma ave que corta o céu, solitária, sobre a mansarda escura do prédio vizinho à igreja. Invejo-lhe a trajetória limpa, tão parecida com a que eu desenharia se estivesse montado nas duas rodas, serpenteando por entre os elétricos e a bonomia dos turistas. Estar em Lisboa sem a minha mota é como ser um fotógrafo que esqueceu a lente em casa: vejo o enquadramento, sinto a luz, mas falta-me o instrumento para capturar o ritmo da rua.
Sou um turista da minha própria mobilidade. Observo o movimento cívico, o humor subtil de quem corre para o 28, e sorrio. No fundo, a Vision não é apenas um veículo; é o meu filtro sobre o mundo. E neste dia, em São Bento ou no Chiado, o mundo pareceu-me ligeiramente mais distante, como uma fotografia de 1974 que ainda não acabou de revelar, ainda submersa no banho químico da memória.