A Rua da Poça e o Chapéu de Bispo

Saí de casa com a missão prática de ajudar a carregar móveis, mas o destino — ou talvez a agilidade da minha Honda Vision — tinha outros planos para o olhar. A carrinha, limitada aos seus dois lugares de utilidade, seguia à frente; eu, atrás, navegava entre as nuvens que, num capricho meteorológico, guardavam a chuva para o sul da cidade e ofereciam a Gualtar frestas de um azul bebé, quase ingénuo.
Na Rua da Poça, o tempo parece ter estagnado num desses cartões-postais de papel baço que hoje guardamos em caixas de sapatos. Ali, encontrei um lavadouro. Um retângulo de água estática sob uma cobertura que outrora abrigou conversas, braços fortes e o cheiro a sabão azul e branco. Hoje, o silêncio é apenas interrompido pelo brilho metálico da mota, que estacionada no empedrado irregular, parece uma visitante do futuro a prestar homenagem a um passado de labor.

Entrei na casa onde os móveis esperavam pela força dos braços e fui recebido por um jardim suspenso. De um arbusto teimoso pendiam pequenos "chapéus de bispo" — pimentos em forma de campânula, oscilando entre o verde imaturo e o laranja vibrante. Pareciam luminárias orgânicas prontas a acender-se, adornos de uma boémia rural encravada na malha urbana, pequenos sinos silenciosos que celebram a resistência do que cresce devagar.
Carregar móveis é um exercício de peso, mas o regresso, feito em duas rodas sob aquele céu dividido, foi de uma leveza absoluta. Às vezes, basta uma rua com nome de água e um pimento com nome de fé para nos lembrarmos que a cidade está cheia de segredos, à espera que uma scooter vermelha os venha despertar.