A Rua da Poça e o Chapéu de Bispo

29 janeiro 2026
Scooter Honda Vision 110 vermelha estacionada em primeiro plano sobre calçada de pedra irregular. Ao lado, um lavadouro público de cimento branco com cobertura inclinada e água estagnada com uma casa de pedra ao fundo, sob uma luz suave de inverno.

Saí de casa com a missão prática de ajudar a carregar móveis, mas o destino — ou talvez a agilidade da minha Honda Vision — tinha outros planos para o olhar. A carrinha, limitada aos seus dois lugares de utilidade, seguia à frente; eu, atrás, navegava entre as nuvens que, num capricho meteorológico, guardavam a chuva para o sul da cidade e ofereciam a Gualtar frestas de um azul bebé, quase ingénuo.

Na Rua da Poça, o tempo parece ter estagnado num desses cartões-postais de papel baço que hoje guardamos em caixas de sapatos. Ali, encontrei um lavadouro. Um retângulo de água estática sob uma cobertura que outrora abrigou conversas, braços fortes e o cheiro a sabão azul e branco. Hoje, o silêncio é apenas interrompido pelo brilho metálico da mota, que estacionada no empedrado irregular, parece uma visitante do futuro a prestar homenagem a um passado de labor.

Fotografia em grande plano de pimentos Chapéu de Bispo pendurados num arbusto, com destaque para um exemplar verde em forma de campânula no centro, rodeado por outros em tons de laranja e vermelho, sobre um fundo de jardim de inverno com folhagem seca.

Entrei na casa onde os móveis esperavam pela força dos braços e fui recebido por um jardim suspenso. De um arbusto teimoso pendiam pequenos "chapéus de bispo" — pimentos em forma de campânula, oscilando entre o verde imaturo e o laranja vibrante. Pareciam luminárias orgânicas prontas a acender-se, adornos de uma boémia rural encravada na malha urbana, pequenos sinos silenciosos que celebram a resistência do que cresce devagar.

Carregar móveis é um exercício de peso, mas o regresso, feito em duas rodas sob aquele céu dividido, foi de uma leveza absoluta. Às vezes, basta uma rua com nome de água e um pimento com nome de fé para nos lembrarmos que a cidade está cheia de segredos, à espera que uma scooter vermelha os venha despertar.