A linha que me desenha

25 janeiro 2026

Há dias em que acordo com a sensação de que a cidade ainda está a meio do seu alongamento matinal. Não sei se é Braga que demora a espreguiçar-se ou se sou eu que acordo mais devagar do que devia, mas há uma espécie de silêncio macio no ar — o tipo de silêncio que não é ausência, é atmosfera.

Ponho o capacete, ligo a Vision, e percebo que, por mais que tente, não consigo ser outra coisa que não isto: uma pessoa que gosta de deslizar devagar, sentir o ar, adivinhar a temperatura pela vibração do guiador. Há quem diga que isto é romantizar a rotina; eu prefiro pensar que é só estar atento.

E foi isso que me deu vontade de criar o blogue.

Na altura, pensei que estava a inventar uma coisa exterior a mim. Uma vitrine antiga que descobri no sótão e que decidi restaurar. Mas com o tempo percebi que A Minha Honda não era um objeto: era um vinco. Um daqueles vincos que já existiam no tecido, só estavam por passar a ferro para se verem melhor.

O blogue não me transformou — limitou-se a revelar o que já estava ali, meio escondido entre deslocações automáticas e conversas apressadas. A sensorialidade, o gosto pelas coisas atmosféricas, o ritmo lento que não é atraso mas escolha… tudo isso vinha comigo desde sempre. Só faltava uma página onde pousar.

O mais curioso é que, ao revelar esse vinco, o blogue começou a alimentar-me de volta. Como se cada texto fosse um lembrete silencioso:
“Olha, és assim. E está tudo bem em seres assim.”

Quando escrevo, ganho um foco que não tenho noutro lado nenhum. Uma clareza que não vem de saber, mas de sentir. E há qualquer coisa de sofisticado nessa simplicidade: não é luxo, não é pretensão; é apenas cuidado. Cuidar do que se sente, cuidar do que se observa, cuidar da forma como se passa por uma rua num dia indiferente.

Gosto disso.
Gosto desta versão de mim.
Gosto da atmosfera, do detalhe, da música que escolho sem pensar, desses ambientes que carrego comigo como se fossem roupas.

E por isso, às vezes, quando vou pela cidade e apanho um reflexo meu num vidro — eu, a mota, o capacete, uma linha quase gráfica no meio do movimento — penso: não fui eu que inventei o blogue. O blogue é que me desenhou melhor.
E agora que ele cumpre um ano, percebo que talvez seja isso que os aniversários fazem: mostram-nos o contorno daquilo que fomos desenhando sem dar por isso.

O resto é só seguir, devagar, pelo vinco.