Um aperto de mão em dezembro
Com temperaturas entre os dois e os quatro graus, eu e a Vision temos andado como que dentro de um frigorífico. E hoje aconteceram episódios interessantes.
Apesar da temperatura, o motor da Vision aquece — e eu aqueço com ele. O mundo de sensações em cima da minha scooter não inclui o frio. Há um casulo invisível que se cria entre o motor, o corpo e o movimento, onde o inverno fica de fora. Frigorífico por fora, estrada por dentro.
No regresso a casa para almoçar, senti alguém a perseguir-me. Depois, uma buzina atrás de mim. Olhei para o retrovisor e vi o meu vizinho da frente a rir-se. Respondi com uma buzinadela e um sorriso. É sempre bom perceber que o frio não demove outras pessoas que se divertem na estrada, longe da monotonia dos carros.
Parei junto ao portão de casa. Ele parou ao meu lado, na sua PCX, e estendeu-me a mão. Um aperto rápido, simples, como quem diz que, além de vizinhos, somos camaradas de estrada. Duas motas lado a lado, habituadas a cruzarem-se todos os dias nas chegadas e saídas de casas frente a frente.
No trabalho, dois colegas chegaram de mota. Trocaram os carros pelas duas rodas. É certo que não chove, mas o frio não demoveu três pessoas — além de mim — de andar de mota.
O que nos leva, num dos dias mais frios do ano, a sair encasacados, de luvas calçadas, e optar por uma mota em vez de um carro? Talvez o divertimento. Talvez a sensação de estar mais dentro do caminho do que apenas a atravessá-lo.
Em pleno dezembro, num dos dias mais frios do ano, fui feliz ao perceber que não estava sozinho. Éramos quatro. E isso aqueceu mais do que qualquer motor.