O voo noturno do frango caseiro

Mais um dia magnífico de sol. O astro-rei veio, definitivamente, passar as férias de Natal a Braga. Havia, no entanto, um compromisso doméstico: ir buscar um frango caseiro. Com um dia inteiro de luz para cumprir a missão junto de um casal amigo que se dedica à agricultura, foi preciso a noite cair para que a minha mulher levasse as mãos à cabeça e se lembrasse do assunto.
Ofereci-me prontamente, claro. A noite e o frio nunca foram obstáculos, mas sim convites. Reforcei a indumentária com o casaco e as luvas e segui caminho. Enquanto o motor aquecia, a viseira embaciava-se com a minha respiração, obrigando-me a abri-la um pouco para deixar entrar o ar gélido e purificador. O dia despedia-se em tons de laranja escuro, enquanto o céu se tingia de um azul-marinho profundo.
Os faróis da minha Vision cruzavam-se com o fluxo dos carros e a insistente iluminação pública amarela. A experiência noturna é diferente nesta época; as decorações exteriores transformam o asfalto. Ao atravessar a autoestrada, olhei para baixo e imaginei a monotonia daqueles condutores, prisioneiros de uma via que impõe a velocidade mas rouba a sensação.
Comecei a descer Vilaça e avistei, ao longe, o brilho das decorações de Tadim. Estou entre pequenas localidades, onde a estrada se mantém movimentada, embora em todo o trajeto não me tenha cruzado com uma única mota.
Chegado ao destino — uma casa típica de pedra onde o rés-do-chão guarda maquinaria agrícola e os beirais do primeiro andar transbordam o charme rústico dos vasos com plantas — fui rapidamente detetado. No silêncio rural, o trabalhar da Honda é um anúncio claro. O casal amigo surgiu e o primeiro comentário da senhora foi o esperado: "Está frio para andar de mota". Sorri. Vivo num mundo de desculpas para não se ser livre.
Depois de dois dedos de conversa, instalei o frango debaixo do banco. Com o motor ainda morno, procedi à ignição e levei-o ao rubro. Aquele frango nunca se imaginou a andar de mota, mas ofereci-lhe esse último voo rasante antes de chegar ao fogão.
No regresso, o cheiro a gado relembrou-me a autenticidade do lugar. As luzes de Natal acompanharam-me até à rotunda de Aveleda, enquanto o fumo das lareiras subindo das chaminés me dizia que, lá dentro, alguém se queixaria do frio. Eu, pelo contrário, só lamentei a viagem ter chegado ao fim.
A scooter está agora estacionada. Apesar de estar quente, arrefecerá mais depressa do que eu. Manterei comigo, até amanhã de manhã, o calor que aquele motor de 110cc me passou e a satisfação de quem sabe que a liberdade não escolhe estação nem temperatura.