O avesso do palco

Dizem que o que não se vê não existe, mas a minha câmara de vigilância discorda. No ecrã, a garagem revela-se não como o abrigo da mota, mas como o camarim de uma casa que nunca pára.
A porta está aberta, num convite mudo ao ar frio de dezembro. Lá fora, no escuro, a minha Vision descansa sob a lona — uma mancha silenciosa que guarda a sua dignidade de estrada enquanto, cá dentro, a vida se amontoa em prateleiras. Há um contraste quase cómico nesta imagem: a tecnologia japonesa da scooter, Euro5+ e cheia de promessas de asfalto, separada por um batente de ferro de uma estante de sapatos desalinhada e de uma caixa de dióspiros que esperam a sua vez.
Olho para este cenário e percebo que a "expulsão" da garagem, de que escrevi antes, não foi um castigo. Foi uma libertação. A garagem tornou-se o depósito da rotina — das roupas lavadas, do calçado de domingo e do entulho que o quotidiano vai deixando para trás. A mota, ao ficar do lado de fora, no pátio, mantém-se ligada ao mundo. Ela está no limiar, pronta para partir, enquanto a casa se fecha sobre si mesma em camadas de utilidade.
A câmara, que devia vigiar perigos, acaba a vigiar a minha própria humanidade. Mostra-me que a ordem é um conceito relativo: para a minha mulher, a garagem está "organizada" agora que tem espaço para a lida da casa. Para mim, a garagem é apenas o sítio por onde passo depressa para chegar ao que realmente importa: o motor que desperta e a estrada que me devolve o fôlego.
No ecrã, o tempo continua suspenso entre a luz artificial do teto e a penumbra do exterior. E eu sorrio ao perceber que, mesmo entre botas velhas e detergente, a Vision continua a ser a peça mais bonita deste puzzle doméstico. Mesmo quando o seu lugar é, tecnicamente, o lado de lá da porta.