Motores de Natal

24 dezembro 2025
Interior de uma mercearia tradicional onde se vê, sobre um balcão metálico, um pack de pacotes de leite, três caixas de ovos e uma mala térmica vermelha aberta, com a luz do dia a entrar pela porta envidraçada ao fundo.

Véspera de Natal. O pequeno-almoço denuncia a falta de leite, mas o que parece um contratempo é, na verdade, um presente. É o pretexto para a última missão antes do Natal na mercearia da dona Cila.

Levo comigo um porta-chaves do blogue para lhe entregar — um pequeno pedaço de metacrilato que carrega toda a gratidão pelas conversas do ano. Encontro-a num turbilhão de farinha e doçura, ocupadíssima a dar forma aos seus famosos pães de ló. O balcão é uma linha de montagem de afetos e, por isso, a saída é mais rápida do que o habitual. A dona Cila não tem tempo para a tertúlia; o Natal dela já está no forno.

Ao sair, com o peso reconfortante do leite e dos ovos na mochila, o céu de Braga decide participar na festa. Tinha lido o aviso da Força Aérea e, pontual como um relógio suíço, o rugido dos F-16M começa a ecoar entre os prédios. É o voo de treino, o "Feliz Natal" supersónico que a FAP oferece às populações.

Vejo o caça surgir, uma silhueta metálica e veloz contra o azul. E, num gesto de simbiose quase instintivo, enquanto o eco dos jatos ainda vibra no peito, ligo o motor da Vision. Lá em cima, cavalos de potência incalculáveis; aqui em baixo, a escala certa para a minha liberdade urbana. Ambos celebramos a liberdade, cada um à sua escala.

Regresso a casa com o sol — que decidiu passar as férias de Natal connosco — a denunciar as marcas da chuva com poeira dos últimos dias. Aproveito a trégua meteorológica para lhe dar uma lavagem. Entre o pano e a água, vou eliminando os vestígios das estradas cinzentas, preparando-a para brilhar na rua.

A Vision está limpa, o leite está na mesa e o céu voltou ao silêncio. O Natal pode começar.