De Vision e Monkey: uma peregrinação sobre rodas
Tenho um colega de trabalho que ostenta um nome de sonoridade forte e cavaleiresca: Hildebrando. Ele é o guardião de uma Monkey reluzente que, ao contrário da discrição quase invisível da minha Vision, assume com facilidade o papel de centro das atenções. A promessa de um passeio em conjunto arrastava-se no calendário há mais de um ano. Foi preciso chegar a uma Sexta-feira Santa para que, finalmente, praticássemos juntos esta nossa quase devoção pelas máquinas menores da Honda.
O destino inicial já estava selado pelo tempo: a nascente do rio que serpenteia por Braga e banha a história das suas gentes, o Rio Este. O encontro em minha casa deu-se à hora marcada, pontualidade que me surpreendeu face à conhecida e costumada descontração do Hildebrando. Mas ficou visto que, para rituais desta natureza, a pompa e a seriedade elevam-se a outro nível.
Com a vontade de partir a ditar o ritmo e o itinerário discutido, a Vision assumiu a liderança. Optámos pelo circuito citadino, rasgando a cidade a meio até derivarmos para a sua periferia rural, na freguesia de São Mamede de Este.
Do caos da nascente à serenidade do Monte Chamor

Chegados à nascente, fomos surpreendidos por um cenário virado do avesso. Longe do bucolismo que imagináramos para aquele ponto de interesse ecológico que marca a evolução da região, encontrámos maquinaria pesada, fitas delimitadoras, terra revolvida e pó. Decorriam ali obras para melhorar os acessos ao local. Eu, que já arquitetava mentalmente o enquadramento perfeito das fotografias, fui confrontado com tubagens e pás de escavadoras. Não deixámos, contudo, de registar o momento: o objetivo inicial estava cumprido e ficámos a conhecer o berço do rio que nos acompanha os dias.

A partir dali, a Vision recuou. Deixei que a pequena Monkey tomasse a dianteira para nos guiar até ao Monte Chamor, onde repousa o imponente monumento ao Sagrado Coração de Jesus. Erguido em 1957 por iniciativa do Pe. Abílio Gomes Correia, o monumento destaca-se pela estátua de mármore que segura o cálice e a hóstia, abençoando o vale.

A nossa jornada continuou, afastando-nos daquele espaço mas guardando a frescura do local no corpo, com a imagem viva das pedras cobertas de musgo a marcar a encosta.
O privilégio nos jardins do Bom Jesus
Com a temperatura a subir no termómetro e o asfalto a convidar, a Vision voltou à frente. Tomámos um trajeto alternativo por São Pedro de Este até encontrarmos o sopé do Bom Jesus do Monte. Após admirarmos as imediações do icónico funicular e da escadaria barroca, mergulhados numa atmosfera turística e movimentada, a Vision cedeu novamente passagem à Monkey. Subimos o monte com as motas afinadíssimas, ao compasso que o trânsito nesta manhã santa ditava.
À chegada, onde outrora o acesso era livre, deparámo-nos com uma cancela e a respetiva cobrança de entradas. Valeu-nos a sensibilidade de quem controlava as barreiras; ao perceber a ansiedade contida nas duas pequenas Hondas, cedeu-nos passagem gratuita. Calámos os motores mais à frente, mesmo no coração daquele santuário que é património mundial, com a sua arquitetura imponente e história que remonta ao século XIV.

Passámos pela célebre gruta artificial projetada por Ernesto Korrodi e entranhámo-nos nas profundezas do parque, parando mesmo junto ao lago onde descansam os coloridos barcos a remos.

Sabemos que o acesso rodoviário àquele recanto é restrito, pelo que agradecemos a extrema gentileza dos funcionários do parque. Cumprimos a nossa parte, circulando com o triplo do cuidado numa via onde o peão é sempre a prioridade absoluta. Ali, a falta de discrição da Monkey voltou a fazer das suas, atraindo olhares curiosos e motivando abordagens sobre clubes dedicados ao modelo e passeios agendados.
A minha Vision limitava-se a ser um belo acessório decorativo até que a empatia mecânica se revelou de forma inesperada. Alguém que passava soltou com um sorriso: "Lá em casa também temos uma Vision!". E ali se fez o pequeno momento de glória da minha discreta companheira de cidade. À saída, um novo aceno a outro funcionário junto à barreira, onde o metal se ergueu sem gincanas desnecessárias. Aquele percurso foi um privilégio que os carros não alcançam.
O clímax no Sameiro e o regresso à cidade
De novo no asfalto liso, rumámos ao Santuário do Sameiro. O passeio ganhou aqui o seu ponto mais alto, oferecendo-nos uma vista panorâmica incrível sobre a cidade. O ambiente estava inundado por aquele tom levemente alaranjado e, infelizmente para mim, carregado de pólenes invasores, muito amigos das minhas alergias de primavera.

Fica sempre a memória terna de ver o olhar das crianças fixo nas nossas motas. Elas não têm a agressividade das grandes cilindradas; não assustam. Pelo contrário, despertam a curiosidade dos mais pequenos que, ao colo dos pais, apontavam entusiasticamente para as duas rodas.

Esta jornada estava a chegar ao fim, mas não sem antes cumprir um último ritual. Saltámos do topo do monte diretamente para o coração da cidade. Sem contar, vi-me de novo a desaguar na Avenida Central e aproveitei para verificar se A Negrita se encontrava aberta nesta sexta-feira de recolhimento. Para meu gáudio, a porta estava escancarada e a casa cheia de clientes.
É exatamente para lá que me dirijo agora, assim que termine de registar esta crónica. Vou em busca do meu café moído na hora e daqueles que são, sem sombra de dúvida, os melhores amendoins do mundo.