O resgate líquido e a ironia do jardim

24 março 2026

O regresso a casa prometia o conforto do piloto automático, aquele estado de graça onde a cidade de Braga se torna um filme familiar projetado na viseira. Mas a rotina, essa senhora caprichosa, tinha outros planos gravados numa mensagem de urgência: era preciso combustível, não para a estrada, mas para o sustento de uma motorroçadora impaciente num jardim qualquer.

Há uma justiça poética no momento em que quem não nutre simpatias por duas rodas se rende à evidência da sua eficácia. Ali estava ela, a acelerar o motor ruidoso entre as flores, enquanto eu partia em missão de salvamento com o jerrican vermelho entre os pés.

O trânsito da hora de ponta era um tapete de metal estático, povoado por condutores de semblante pesado, prisioneiros das suas redomas de aço. Para a Vision, porém, o cenário era um recreio.

À minha frente, uma daquelas máquinas de alta cilindrada, mais sonora do que eficaz no pára-arranca, ensaiava movimentos entre os carros com uma insistência quase coreográfica, mas sem grande progresso. Bastou a presença constante da pequena Honda nos seus espelhos para que, num gesto inevitável, se encostasse ligeiramente. A passagem abriu-se sem drama — e a “pulga” seguiu, leve, como quem conhece de cor os atalhos do asfalto.

Há uma elegância silenciosa em ver o caminho abrir-se, em deixar a força bruta perder importância perante a fluidez.

No posto de abastecimento, o vazio era um privilégio raro. O líquido foi entregue sem demoras, longe das filas da ditadura dos preços de fim de semana.

Aproveitei, ainda assim, as pequenas regalias reservadas a quem enfrenta o vento — um daqueles cartões com descontos discretos para duas rodas — e ali estava eu, a pagar com privilégios de estrada a “bebida” de uma máquina que nem sequer tem rodas para tocar o chão. Uma pequena subversão doméstica, quase invisível, no equilíbrio das coisas.

Regressei com o sol a despedir-se, tingindo o horizonte de tons quentes, enquanto a pequena Honda me devolvia ao repouso. No final, a motorroçadora foi salva da secura, e eu, mais uma vez, fui salvo da monotonia por um desvio inesperado.

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