Miopia sob o dilúvio

21 janeiro 2026
Grande plano do painel digital de uma scooter Honda Vision vermelha, coberto por densas gotas de água da chuva que distorcem a luz. No ecrã LCD, lê-se a mensagem de saudação HELLO. Abaixo do mostrador, destaca-se o logótipo prateado da asa da Honda sobre a carenagem vermelha metalizada, também salpicada por gotas

O despertar do motor faz-se sem cerimónias, logo à primeira. Enquanto o motor responde sem falhas, os meus olhos ainda procuram nitidez. Pensei que o frio pudesse alterar o comportamento, mas seja na ignição ou no desenrolar na estrada, o gelo não parece obstáculo à Vision.

Talvez o obstáculo esteja em mim. Lido com o caminho rotineiro para o trabalho através de uma miopia interrompida por uma ou outra divagação num reflexo: a água acumulada no asfalto, a iluminação urbana num amarelo quente, as formas caprichosas que a chuva desenha na via.

Tem sido um inverno rigoroso. Talvez um dos mais chuvosos de que Braga tem memória — ou, certamente, o mais chuvoso desde que passei a fazer os meus trajetos diários em duas rodas. No entanto, o caminho cumpre-se. Mesmo com a visão turva, avanço — como se o céu tivesse perdido a tampa e nos despejasse a sua melancolia líquida.

Não posso permitir que a rotina me roube a perceção dos pormenores, embora o cinzento tente torná-lo difícil. Vou seguindo as formas, como quem lê um mapa líquido. A luz da mercearia que acorda cedo, o trânsito que se cruza comigo como vultos num aquário, as lombas que me sacodem as ideias de volta ao lugar.

No mostrador, as gotas de chuva aprisionam a luz e vibram com o pulsar do motor. Mais um estacionamento. Mais um arranque. O mesmo caminho de regresso, onde a liberdade se mede pela clareza com que ainda consigo ver o mundo, mesmo através da água, reconhecendo os seus contornos.